A ilustração de moda no século 17

Por Rafaella Britto

As ilustrações de moda de Wenceslaus Hollar
Imagens: Univeristy of Toronto Libraries - Wenceslaus Hollar Digital Collection

Desde os primórdios das civilizações, a moda desperta fascínio nos espíritos curiosos. Durante a Era dos Descobrimentos, ou Era das Grandes Navegações (período entre o século XV e início do século XVII), quando povos europeus desbravaram os oceanos, no intuito de expandir sua rota comercial, descobriu-se a necessidade de documentar de maneira minuciosa as novas sociedades. Data desta época a concepção da roupa como arte visual, elemento cultural e vetor de comunicação. Desenvolveram-se as técnicas da xilogravura (pintura em madeira) e água-forte (pintura em metal), e acredita-se que, entre os anos de 1520 e 1610, teriam sido lançadas mais de 200 coleções de gravuras que retratam a indumentária do período.
Dentre as mais famosas, estão “De gli habiti antichi et moderni di diverse parti del mondo libri due...” (em tradução livre, “A Vestimenta Antiga e Moderna de Diversas Partes do Mundo em Dois Livros...”), publicada em Veneza, em 1590, por Cesare Vecellio, com gravuras de autoria do botânico e xilógrafo norte-americano Christopher Krieger. “De gli habiti...” é considerado o primeiro registro da moda global: a coleção apresenta 420 gravuras, divididas em dois volumes. O primeiro volume retrata a indumentária europeia, enquanto o segundo inclui vestimentas dos povos asiáticos e africanos, dentre eles, persas, sarracenos, turcos e árabes. Entre as gravuras reunidas em "De gli habiti", está a descrita por Vecellio como “La Favorita del Turco”, que apresenta Roxelane, concubina que tornou-se confidente do sultão do Império Otomano Solimão, o Magnífico (1494-1566).


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O boêmio Wenceslaus Hollar desenvolvia diferentes obras artísticas: nascido em Praga, em 16 de julho de 1607, filho de funcionário de classe média alta cívica, sua família fora arruinada durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). O jovem Hollar abandona a carreira das leis, destino reservado aos homens de sua época, e decide tornar-se artista. Influenciado pelo pintor alemão Albrecht Dürer, seus primeiros trabalhos datam de 1625 e 1626. Ao mudar-se de Praga para Londres, Hollar trabalhou como desenhista para famílias aristocráticas e ilustrou obras literárias de autores como John Ogilby, Robert Stapylton e William Dugdale. Morreu em 25 de março de 1677, aos 69 anos. A obra de Wenceslaus Hollar abarca desenhos arquitetônicos, retratos e vistas panorâmicas. Porém seu legado está no registro dos costumes dos homens e mulheres de seu tempo, ao redor do mundo, contribuindo significativamente para o surgimento e consolidação da ilustração de moda como arte e documentação histórica. Sua mais famosa série de gravuras intitula-se “Women as Allegories of Four Season” (em tradução livre, “Mulheres como Alegorias das Quatro Estações”). Além dos hábitos da nobreza britânica, é possível desfrutar de registros da indumentária de monges, andarilhos, comediantes, sacerdotes, africanos, chineses, turcos e indígenas americanos.











































Sob o domínio do vaidoso rei Luís XIV, a França consolidou-se como principal capital da moda e lançadora de tendências globais. Dentre as contribuições estéticas d’O Rei Sol (como era conhecido Luís XIV), estão a introdução de novos padrões de etiqueta, a tendência das perucas, (inicialmente adotadas para esconder a calvície, porém, posteriormente, utilizadas como distintivo social da aristocracia) e a criação da moda sazonal (que muda conforme as estações do ano).

Foi na França, em 1672, que surgiu a primeira publicação periódica a abordar a moda como assunto de interesse público: a revista Mercure Galant, fundada e dirigida por Jean Donneau de Visé, que permaneceu no comando da publicação até sua morte, em 1710. Nas páginas da Mercure Galant, encontravam-se poemas, historietas, informações sobre a vida na alta-sociedade, indicações de lojas e estabelecimentos, informações sobre etiqueta, e ilustrações de moda que continham legendas informando os principais detalhes das criações. A Mercure Galant, posteriormente rebatizada de Mercure de France, continuou a ser publicada até o ano de 1965.








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Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

2 comentários:

  1. Que lindas essas ilustrações, Rafa!

    Eu acho incrível como a moda consegue dizer muito sobre uma sociedade de determinado período.E são ilustrações tão bem detalhadas, dá realmente muito gosto de olhar! Fiquei apaixonada por essa reunião com as roupas de outros povos durante As Grandes Navegações. É interessante ver como as pessoas se vestiam fora do eixo europeu.

    Beijos

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    1. É interessante mesmo, Gabi, e absolutamente fascinante. Fico feliz que tenha gostado!

      Beijos!

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