Um tributo a Pier Angeli – “Não há muitas como você...”

Nota: O texto a seguir foi traduzido por mim do original em inglês "A tribute to Pier Angeli - 'There aren't many like you...'", com permissão dos autores do site Pier Angeli, e só poderá ser reproduzido com autorização e sob os devidos créditos.  

Foto: Reprodução

Ela não era exuberante como Sophia Loren, vivaz como Gina Lollobrigida, ou intensa como Anna Magnani. Mas era talentosa. O que a distinguia das outras atrizes era uma qualidade de garota comum, uma maneira suave de falar, um rosto mais delicado, e a habilidade de entregar-se a performances verdadeiramente deslumbrantes.
Talvez ela tivesse extraído de experiências reais as emoções que transmitiu nas telas. Sua vida pessoal era agitada. O mundo a perdeu em 1971, ainda em uma idade jovem. Para ela, a fama, a glória e a felicidade não foram duradouras.


Foto: Reprodução

Seu verdadeiro nome era Anna Maria Pierangeli. Ela tinha duas irmãs, Marisa (irmã gêmea/atriz) e Patrizia. Anna e Marisa nasceram em 19 de junho de 1932, em Cagliari, Sardinia (Itália), em uma família católica, e viriam a conquistar fama sob os nomes artísticos Pier Angeli e Marisa Pavan.
Com 16 anos, quando Angeli estudava Artes em Roma, foi descoberta pelo diretor Leónide Moguy, que a convidou para um papel em “Tomorrow is too Late” (“Domani è Troppo Tardi” – 1949). Seu trabalho causou tamanha impressão que ela venceu um prêmio italiano de Melhor Atriz, e chamou a atenção dos produtores da MGM (Metro- Goldwyn-Mayer), que ofereceram a ela um contrato com o estúdio. Lá, ela encantou a todos com sua beleza e simplicidade.

Foto: Reprodução

Em 1951, foi-lhe dado o papel-título em “Teresa”, ao lado de John Ericson. Este viria a ser um de seus melhores trabalhos, e um início promissor para uma atriz italiana de apenas 18 anos.
No ano seguinte, contracenou com Gene Kelly em “The Devil Makes Three”, um filme sobre um ex-soldado que retorna da Alemanha procurando uma família que o ajudou enquanto ele esteve lá, durante a Segunda Guerra Mundial. Angeli interpreta a única sobrevivente da família, que se envolve com Kelly.


John Ericson e Pier Angeli em foto publicitária de "Teresa" (1951)
Foto: Reprodução

Pier Angeli e Gene Kelly em "The Devil Makes Three" (1952)

Em 1953, fez par romântico com Ricardo Montalban em “Sombrero”, um musical estrelado por Cyd Charisse, Vittorio Gassman e Yvonne de Carlo. A obra conta três histórias nos gêneros romance, drama e comédia. A personagem de Angeli é uma menina de família nobre, controlada por seu pai, e que é cortejada pelo charmoso, porém irresponsável Montalban.


Pier Angeli e Ricardo Montalban em "Sombrero" (1953)
Foto: Reprodução

No mesmo ano representou um de seus mais memoráveis papéis, como Nina em “The Story of Three Loves”. Nina é uma jovem viúva que perde seu marido em um campo de concentração e, incapaz de lidar com sua perda, tenta cometer o suicídio atirando-se de uma ponte. Ela é salva por um ex-trapezista, interpretado por Kirk Douglas, cuja vida também foi golpeada por uma tragédia. Ele anseia por ter de volta sua glória artística perdida, mas, para isso, deve encontrar uma parceira compatível com quem possa trabalhar. Então treina Nina e, durante este período, apaixona-se por ela – o que, a propósito, aconteceu com Douglas também fora das telas.
Logo Angeli estaria profundamente apaixonada – mas não por Douglas.


Pier Angeli e Kirk Douglas em "The Story Of Three Loves" (1953)
Foto: Reprodução

Em 1954, Angeli foi escolhida para viver a leal Debora na saga épica bíblica “The Silver Chalice”. Ela interpreta uma adorável cristã que devota sua fé em Deus e ama o escravo Basil, interpretado pelo então novato Paul Newman.
Para Newman e muitos críticos, não foi um filme memorável. Para os fãs de Angeli, no entanto, foi uma chance de mostrar o lado mais cativante da atriz.

Paul Newman e Pier Angeli no épico "The Silver Chalice" (1954)
Foto: Reprodução

Certo dia, após as filmagens, um impetuoso jovem ator trabalhando em um set próximo parou para visitar Newman e outro amigo. Eles o apresentaram a Angeli. Aquele encontro mudaria suas vidas.
Ele estava apenas iniciando sua carreira em Hollywood, e viria a se tornar uma das maiores lendas do cinema de todos os tempos. Seu nome era James Dean, e ele estava trabalhando no set de “East of Eden”, seu primeiro filme.
A atração entre Angeli e Dean foi imediata. Sentiam que se completavam, ele tinha um comportamento selvagem e rebelde, ela era serena e conformista. Ela traria a ele a estabilidade que ele não tinha, e ele traria a vida dela diversão e excitação. Começaram a namorar e logo se tornaram inseparáveis.
Aos poucos, Dean tornou-se mais gentil e maleável sob influência de Angeli. Amigos dizem que ele usou um smoking pela primeira vez para acompanhá-la a uma première. Aparentemente, eles faziam muito felizes um ao outro.

James Dean e Pier Angeli
Foto: Reprodução

Mas nem tudo era um mar de rosas para o belíssimo casal de Hollywood. Havia a mãe controladora de Angeli, que não considerava Dean adequado a sua filha e proibiu-a de vê-lo. Sua mãe tentou fazer até mesmo com que o estúdio os separasse. Quando Pier ameaçou sair de casa, a senhora Pierangeli foi forçada a aceitar a união.


James Dean e Pier Angeli
Foto: Reprodução

Angeli queria se casar com Dean, mas ele era relutante. Dean tinha medo de ter sua liberdade restringida e não estar pronto, ou não ser capaz de cuidar dela devidamente. Sua indecisão e insegurança magoaram Angeli, que acreditou que, se ele tinha dúvidas, era porque não a amava. Esta pressão começou a tornar conturbado o relacionamento entre ambos.
Um dia, Dean viajou a Nova York por duas semanas para participar de um programa de TV, enquanto Angeli ficou em Los Angeles. Ao retornar, a relação entre os dois havia mudado. Mesmo persistindo no namoro, o romance arrefeceu consideravelmente.


James Dean e Pier Angeli
Foto: Reprodução

Angeli começou a namorar um jovem cantor que conhecera enquanto trabalhava em um filme na Alemanha, três anos antes. Seu nome era Vic Damone – à época uma estrela em ascensão na MGM. Ele era charmoso e dono de uma voz magnífica. Mas o mais o importante era que ele provinha de uma família católica italiana e, diferentemente de Jimmy Dean, não era um tipo rebelde, mas possuía uma imagem asseada. Noutras palavras, Damone era o genro dos sonhos da senhora Pierangeli.
Poucos meses depois, para o espanto de Dean, Pier anunciou que ela e Damone estavam noivos.
O casamento ocorreu em uma igreja de Beverly Hills, em 24 de novembro de 1954. Reza a lenda que, neste dia, Dean sentou-se em sua motocicleta ao lado de fora da igreja, vestido em sua jaqueta vermelha, calças de brim desbotadas, botas e chapéu de couro, esperando que os noivos saíssem. Quando saíram, Dean montou na motocicleta e acelerou ruidosamente a toda velocidade.

Pier Angeli e Vic Damone
Foto: Reprodução

Após o término do namoro, Jimmy sentiu-se desnorteado e magoado. Teve casos com outras mulheres até o dia de sua morte, em 1955, mas, apesar disso, sabia que jamais haveria em sua vida outra Pier Angeli. Nenhuma jamais poderia ser tão romanticamente acoplada a ele.
No mesmo ano, Pier deu à luz um filho, Perry Damone.


Pier Angeli, Vic Damone e o filho, Perry Damone
Foto: Reprodução

Em 1956, atuou em um de seus mais importantes filmes, “Somebody Up There Likes Me”. Ironicamente, Dean havia sido cogitado para viver o protagonista, e quando morreu, Paul Newman foi indicado a substituí-lo. Newman e Angeli contracenavam pela segunda vez, e o resultado foi muito melhor que a primeira produção em que trabalharam juntos, “The Silver Chalice”.
“Somebody Up There Likes Me” é um filme de que Newman se orgulha. Interpretando o pugilista Rocky Graziano, tornou-se um astro das telonas por sua performance imponente. Angeli contribuiu muitíssimo para o sucesso da obra com sua doçura no papel da esposa apoiadora de Graziano, Nora.

Pier Angeli e Paul Newman em "Somebody Ups There Likes Me" (1956)
Foto: Reprodução

Em 1957, ela apareceu em “The Vintage”, um drama romântico de amor proibido e encontros secretos entre dois casais. Em “The Vintage”, co-estrelam Mel Ferrer, John Kerr e Michele Morgan. Angeli interpreta a heroína atormentada, disposta a fazer qualquer coisa por amor. 

Pier Angeli e Mel Ferrer em foto publicitária de "The Vintage" (1957)
Foto: Reprodução

Sua participação seguinte foi em um filme mais alegre – a comédia musical “Merry Andrew”, estrelando Danny Kaye. O filme tornou-se popular pela interpretação de Angeli como a graciosa Selena Gallini, uma trapezista que conquista o coração do professor Andrew Larabee.


Pier Angeli em "Merry Andrew" (1957)
Foto: Reprodução

Mas se nas telas tudo eram alegrias e risos, na vida real as coisas não caminhavam bem. Em 1958, Pier e Damone se divorciaram.
Pier trabalhou em “SOS Pacific” – o seu único filme no ano de 1959. Conta a história de sobreviventes de um acidente de avião, que cai em uma ilha onde são realizados testes nucleares.
Em 1960, ela fez “Muskeeters of the Sea”, “Estoril y Sus Fiestas” e “The Angry Silence”. Quase não se falou nos dois primeiros, mas em compensação, “The Angry Silence” foi aclamado pela crítica. Angeli interpretou a angustiada esposa do personagem de Richard Attenborough’s, um homem que se recusa a aderir a uma greve e aceita as consequências de sua decisão.

Foto: Reprodução

Em 1962, as coisas pareciam definitivamente prosperar para Angeli. Casou-se novamente, desta vez com o compositor Armando Trovajoli, e ainda participou de duas grandes produções: “Sodom and Gomorrah” e “White Slave Ship”. Em 3 de janeiro de 1963, Pier deu à luz a seu segundo filho, Howard Andrew Rugantino.


Pier Angeli e seu segundo marido, o compositor Armando Trovajoli
Foto: Reprodução

Os anos seguintes, no entanto, foram desapontadores. Angeli continuava a atuar, porém a maioria de seus trabalhos, naquele período, consistiram em filmes europeus de pouco prestígio.
A união com Trovajoli não a fez feliz e divorciaram-se em 1965.
Conforme amadurecia em idade, tornou-se cada vez mais difícil encontrar para si bons papéis. Os tempos eram outros, também: o sistema de estúdio, o qual ela conhecera décadas antes, começava a decair. Com a chegada da década de 1970, houve poucas chances para ela.


Pier Angeli em fotografia tirada por James Dean
Foto: Reprodução

Angeli fez seu último filme em 1971, “Octaman”, considerado o pior filme de sua carreira.
Aos 39 anos, descontente e só, sofrendo de doenças nervosas e em dificultosa situação financeira, Angeli faleceu de choque anafilático, dado por seu médico como tranquilizador.


Foto: Reprodução

Sua irmã gêmea, Marisa, alterou seu nome para Marisa Pavan. Sua vida foi mais feliz que a vida de sua irmã Angeli e sua carreira cinematográfica, mais bem sucedida. Pavan não participou de muitos filmes, ao longo de sua carreira, porém um deles é especialmente notável: “The Rose Tattoo”. Sua performance rendeu a ela uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, em 1956.
O casamento de Pavan com o ator francês Jean-Pierre Aumont foi por alguma razão perturbado e o casal se separou, mas reconciliaram-se anos mais tarde e casaram-se novamente. Marisa, hoje, está na idade de 82 anos, viúva e vive em Paris.


As irmãs Marisa Pavan e Pier Angeli
Foto: Reprodução

Anna Maria Pierangeli era despretensiosa, simples e realista. Ela não poderia se tornar o tipo glamouroso de Lana Turner, mas, em vez disso, ela era a garota comum, a garota que sofria, chorava e possuía fraquezas e temores, como a maioria das pessoas.
Angeli emanou tristeza, necessidade de amor e proteção, e partiu os corações de inúmeras audiências com suas maneiras nobres e doces. Possuía grande carisma e deveria ser por nós rememorada como uma mulher bela e talentosa, que detinha tudo o que era preciso para ser uma grande estrela.


Foto: Reprodução

É mesmo uma pena que a indústria cinematográfica jamais houvesse reconhecido devidamente seu potencial artístico. No entanto, Pier Angeli deixou-nos um legado de 30 filmes, que testemunham acerca de sua figura como a atriz maravilhosa e a mulher encantadora que foi.  

Texto original em inglês: Paolo Faillace, autor do site Pier Angeli
Tradução para o português: Rafaella Britto 

Leia também:

O que eles disseram sobre Pier Angeli

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

9 comentários:

  1. Rafa,adorei conhecer seu blog,parabéns pelo bom gosto e conteúdo,um beijo Ary

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, fico feliz que tenha gostado! Volte sempre!

      Beijos! <3

      Excluir
  2. Rafa que lindo post! Conheci Pier Angeli graças a minha paixão pelo Jimmy <3 , e para mim não havia casal mais perfeito, foi uma pena nao terem podido viver esse amor por mais tempo, mas o tempo que tiveram marcou muito e sou admiradora dessa moça linda,delicada e super talentosa !

    Parabéns!!

    Bjus

    www.misscherry.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Laís! Também conheci a Pier através do Jimmy. É um dos meus casais favoritos e eu também gostaria que essa história de amor pudesse ser mais duradoura. A Pier é uma das atrizes mais belas que conheço, tanta graça e delicadeza!

      Obrigada pela visita e retorne sempre! Beijos! <3

      Excluir
  3. Thank you very much Rafaella, shared this post on our Facebook page, mille grazie e cari saluti dall'Italia!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Thank you so much, Debora! I'm very glad you liked it! Feel free to always come back.

      Obrigada! ;)

      Excluir
  4. Rafa,ela era bonita né? Não conhecia,adorei o post,beijinhos Ary

    ResponderExcluir

Muito obrigada pela sua visita e sinta-se à vontade para opinar. Lembre-se de que:

(1) Todos os comentários são moderados pela editora do Império Retrô;
(2) Críticas e sugestões serão bem-vindas;
(3) Não serão aceitos spams e comentários anônimos de cunho agressivo.