Um breve olhar histórico-cultural sobre Cuba, através da moda

Por Rafaella Britto


(Foto: Reprodução)

Cuba constitui-se como uma das mais intrigantes nações do mundo: foi o primeiro país das Américas a adotar o socialismo como doutrina política. Os 11,2 milhões de habitantes da ilha caribenha vivem em permanente estilo de vida vintage: os serviços de celulares são caros e inacessíveis à maioria da população; o uso da internet é restrito; os carros, a arquitetura, e até mesmo hábitos conservam-se como há décadas passadas.
Atualmente, discute-se a retomada das relações diplomáticas entre EUA e Cuba, a reabertura de embaixadas e, eventualmente, o estabelecimento de laços comerciais. 
Cuba se abre, e a moda reage: pelas ruas de Havana, já se fazem notar camisetas e bandanas cujas estampas ostentam as listras e estrelas da bandeira norte-americana. Mas para compreender o impacto da moda na sociedade cubana, é necessário retornar ao passado.

(Foto: New York Times/Reprodução)

O vestuário, bem como outras diversas manifestações culturais cubanas, foi influenciado pelos nativos ameríndios, os escravos africanos e os colonizadores europeus. Caracteriza-se pelas cores vivas e tecidos leves, típicos da moda tropical.
As lutas pela independência na ilha iniciaram-se no século XVII. Em 1868, teve início a luta armada. No século XIX, Cuba não possuía economia suficientemente forte para ser lançadora de tendências no mundo, como Paris.

(Foto: Reprodução)

Os habitantes da ilha caribenha vestiam-se de maneira que causava furor aos conservadores europeus. Data desta época a criação da tradicional Bata Cubana, vestido comumente utilizado na prática da dança Rumba e performances de cabaré. O design das Batas Cubanas combina elementos dos espetáculos burlescos e de carnaval, e trajes ciganos. De maneira geral, são confeccionadas em cetim e poliéster, e caracterizadas por possuírem decotes profundos e babados nas saias e nas mangas, debruados por fitas. A modelagem sereia, ajustada ao corpo, se abre na linha do quadril ou dos joelhos, dando amplitude a saia.

Bata Cubana - (Foto: Reprodução)

Bata Cubana - (Foto: Reprodução)

Na década de 1950, a “Rainha da Salsa”, Célia Cruz, adotaria as Batas Cubanas como traje favorito para suas performances ao vivo.


Em 20 de maio de 1902, é proclamada a República em Cuba. No entanto, a ilha teve sua independência limitada, já que os EUA, por 58 anos, interviram na política interna do país. Por décadas, a economia baseou-se na exportação de açúcar.
A partir de 1902, a moda na alta-sociedade cubana seguia as diretrizes do Velho Mundo. Na França, este período é chamado La Belle Époque, e na Inglaterra, Era Eduardiana: a silhueta é definida pela forma “S”, acentuada devido à crinolina, armação que criava volume na parte traseira dos vestidos. Os espartilhos afinavam a cintura e projetavam o busto para frente. Os vestidos possuíam muitas rendas, e os penteados eram extravagantes e enfeitados por chapéus de plumas.

Maria Vinent, cantora soprano cubana, em fotografia autografada de 1903 - (Foto: Reprodução)

Em 1920, as mulheres livraram-se dos espartilhos: a silhueta era marcada pelo desaparecimento das curvas, em vestidos tubulares, curtos e em estampas geométricas. Foi nesta época que Cuba adquiriu a reputação de um “parque de diversões” onde tudo era permitido, atraindo barões e boêmios.


A quebra da Bolsa de Valores em Nova York, em 1929, colocaria Cuba em condição de fragilidade econômica. Em 1933, o líder cubano Fulgêncio Batista assumiu o poder de fato. Em 1940, Batista subiu ao poder como Presidente da República, permanecendo até 1944, e, posteriormente, com novo mandato, de 1952 a 1959, como ditador.

Eduardo Galeano, em sua obra "As Veias Abertas da América Latina", descreve o panorama político e econômico do país nos anos que antecederam a Revolução:

"(...) Uma economia tão dependente e vulnerável como a de Cuba não podia escapar, posteriormente, ao impacto feroz da crise de 1929 nos Estados Unidos: o preço do açúcar chegou a baixar a menos de um centavo de dólar em 1932, e em três anos as exportações reduziram-se, em valor, à quarta parte. O índice de desemprego de Cuba nesse tempo "dificilmente se igualou a qualquer país." O desastre de 1921 fora provocado pela queda do preço do açúcar no mercado dos Estados Unidos, e dos Estados Unidos não demorou a chegar um crédito de 50 milhões de dólares; nas ancas do crédito, chegou também o general Crowder: sob pretexto de controlar a utilização dos fundos, Crowder governaria, de fato, o país. Graças a seus bons ofícios, a ditadura Machado chega ao poder em 1924; com Cuba, paralisada pela greve geral, a grande depressão dos anos de 1930 leva adiante este regime de sangue e fogo.

(...)

"(...) Já em 1850, os Estados Unidos dominavam a terça parte do comércio de Cuba, vendiam e compravam mais do que a Espanha, embora a ilha fosse uma colônia espanhola, e a bandeira das listras e estrelas ondulava mastros da metade dos navios que ali chegavam. Um viajante espanhol encontrou por volta de 1859, no interior, em remotas aldeias cubanas, máquinas de costurar fabricadas nos Estados Unidos. As principais ruas de Havana foram calçadas com bloco de granito de Boston."


(Trechos de "As Veias Abertas da América Latina", de Eduardo Galeano)

Oito garotas da sociedade cubana reunidas em um jardim de Havana para conversarem sobre suas roupas novas, a maioria vinda de Paris - (Foto: Life/Vintage Cuba)

Fulgêncio Batista foi apoiado pelos EUA, pois era favorável aos negócios americanos na ilha. Seu governo foi marcado por regulações na economia e insatisfação popular. Neste período, Cuba afundava em corrupção governamental, cassinos, consumo de drogas e prostituição. No entanto, os EUA mantinham na ilha uma ampla infraestrutura, construída para desfrute dos turistas. 



A ilha tornou-se o destino favorito de socialites e celebridades hollywoodianas, e inspiração para nomes da literatura, como Ernest Hemingway. As revistas turísticas descreviam Havana como “uma amante do prazer, uma exuberante deusa das delícias”.

(Foto: Vintage Cuba)

(Foto: Vintage Cuba)

A vedete cubana Olga Chaviano - (Foto: Vintage Cuba)

A vedete cubana Olga Chaviano - (Foto: Vintage Cuba)

(Foto: Vintage Cuba)

A guayabera, camisa de pregas, fechada por botões, possuindo quatro grandes bolsos na parte frontal, e com design bordado, tornou-se símbolo da moda cubana. Acredita-se que a guayabera tenha sido criada na província de Sancti Spíritus, por trabalhadores rurais que transformaram lençóis de linho em camisas com bolsos grandes, para armazenar os tradicionais charutos. 

Guayabera - (Foto: Reprodução)

Ernest Hemingway e John Wayne (ao lado de Gary Cooper), vestidos em guayaberas - (Foto: Reprodução)

Na atualidade, as guayaberas são utilizadas como uniforme para homens e mulheres em funções de trabalho estatais. São frequentemente confeccionadas na cor branca, nos tecidos linho ou algodão. Mulheres utilizam a camisa em outras cores, além de terem-nas transformado também em vestidos.

Vestido guayabera - (Foto: Reprodução)

Em 1951, o sitcom “I Love Lucy”, revolucionou a televisão norte-americana ao exibir pela primeira vez um “casal inter-racial”, interpretado por Lucille Ball e seu marido na vida real, o cubano Desi Arnaz. A série não escapou à censura e, em 1953, Lucille Ball foi levada ao comitê anticomunista e questionada a respeito de seu suposto envolvimento com o Partido Comunista americano. No episódio 68, Arnaz defendeu-a em uma sátira: “O único toque de vermelho de Lucy é em seu cabelo e, mesmo assim, não é legítimo”. Um dos episódios de “I Love Lucy” censurado depois de instaurada a Revolução Cubana chama-se “Lucy vai a Havana”.

Desi Arnaz e Lucille Ball - (Foto: Reprodução)

Revolução Cubana

A Revolução Cubana de 1959 reagiu à desigualdade do governo de Fulgêncio Batista, e instaurou o regime socialista em Cuba. Sobrevivendo nas florestas, os guerrilheiros criavam emboscadas para as tropas inimigas. Por iniciativa de Che Guevara, construíram-se nas florestas sistemas rudimentares para a produção de pão e artigos de couro.
Os revolucionários granjearam a simpatia da população. A moda, inspirada pela figura dos guerrilheiros maltrapilhos, valorizou as barbas e os cabelos compridos, bem como as boinas ao estilo Che. A corrida espacial, a pop-art e, posteriormente, na década de 1970, as estampas psicodélicas, também marcaram presença nas ruas de Havana.

(Foto: Reprodução)

Aleida March e Che Guevara - (Foto: Reprodução)

Che Guevara e Fidel Castro - (Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

Atualidades

O pós-Revolução trouxe consigo mudanças significativas nos mais diversos âmbitos da sociedade cubana. Em Havana, em 15 de abril de 1982, foi inaugurada a casa de modas La Maison. O prédio, construído em 1946, foi abandonado pelos seus proprietários no triunfo da Revolução, e reformado pela primeira vez somente em 1984. A casa abriga outras lojas de departamento, como café e piano bar, e é símbolo do consumo de moda de luxo em Cuba. 

Confira um desfile de 1990, realizado na La Maison:


O ecletismo da moda em Cuba é marcado pela invenção, uma vez que, em decorrência do regime político vigente, o consumo de moda popular não é influenciado pelas boutiques e passarelas internacionais. O tropicalismo, as belezas e paisagens naturais de Cuba inspiram coleções fashion mundo afora.

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

Na atualidade, cubanos questionam as origens e os benefícios das “trapichopis”, termo que alcunha os estabelecimentos onde se vendem roupas de segunda mão, ou recicladas, a altos preços e em má qualidade. É o que mostra esta reportagem cubana:


A comédia romântica de produção venezuelana “Habana Eva”, lançada em 2010, narra de maneira divertida a saga da jovem Eva, após a retirada de Fidel Castro do poder em Cuba: Eva trabalha em uma fábrica têxtil estatal, onde confecciona roupas de acordo com as diretrizes impostas pelo regime, e tem o sonho de tornar-se uma designer de moda. Ela está noiva de Ángel, um jovem trabalhador, porém pouco ambicioso. Mas a chegada de um misterioso fotógrafo estrangeiro, Jorge, pode pôr tudo a perder. Eva precisa escolher entre o namorado singelo e leal, e o belo forasteiro que a faz descobrir um mundo até então desconhecido.



De autoria de Conner Gorry e Gabriel Solomons, o livro “Havana Street Style”, publicado em agosto de 2014, explora as relações entre arte, moda e vida urbana pelas ruas da capital cubana: as 250 fotografias registram o exotismo de Havana em mistos de cores, diferentes raças e culturas, revelando o cosmopolitismo da moda, para além dos eixos Europa-Estados Unidos. "Havana Street Style" traz em suas páginas visões analíticas acerca da moda como fator econômico e identidade sociocultural da nação cubana.

(Foto: Reprodução)


Fontes:

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

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