Cecília Meireles conta como escreveu o “Romanceiro da Inconfidência”

Por Cecília Meireles*


 Um Gênio singular protegeu, desde o princípio, Vila Rica: fê-la surgir, prestigiosa e riquíssima, das curtas ondas de um riacho – fábula maior que a própria Vênus, que nasceu do grandioso mar.
 Concentrou entre muros de pedra, tão longe do convívio fácil dos lugares ilustres do século 18, um grupo de homens que estiveram, na sua época, tão ao corrente dos fatos e dos vultos seus contemporâneos – que puderam repercutir, neste pequeno recanto, as idéias mais avançadas da Europa, e foram murmurados nestes ares os nomes mais famosos do mundo, e lidos a esta luz os livros mais arrojados do tempo -, com uma naturalidade que impressiona, comove e quase assusta.
 O Gênio protetor de Vila Rica, num jogo estranho, foi dispondo, entre as águas e pedras, enigmáticos dados: o do Ouro – o da Ciência – o das Artes – o da Liberdade – o do Amor... Eram os dados brancos. Mas dispunha também os negros: o da Inveja – o da Tirania – o da Pusilanimidade...
 E foi um jogo que durou cem anos: o tempo de nascer e morrer o Arraial de Ouro Podre, de se encontrarem aqui homens de todos os pontos cardeais: do Serro e de Juiz de Fora; de Mariana e do Rio das Mortes; do Rio de Janeiro e de São Paulo; do Porto, de Lisboa, de Leiria, dos Açores, que tinham cada qual uma função a exercer nos singulares acontecimentos ocorridos nestes palácios, nestas casas, ao longo destas ruas, à margem destes rios, dentro destas igrejas...
 A quase dois séculos de distância, podemos ver o movimento de todas essas peças, na tremenda partida confusamente jogada, contra Ouro Podre, Mestre Pascoal e Felipe dos Santos – figura do Conde de Assumar; contra Gonzaga, Alvarega, Cláudio Manuel, Tiradentes, Freire de Andrade, Maciel, Luiz Vieira, isto é, a nobreza da raça, da hierarquia, do pensamento, da cultura – um Silvério dos Reis, um Pamplona, um Malheiros de Brito... E contra o Alferes Tiradentes, que calcorreou todas estas serras, estas matas, estes caminhos, a serviço de um partido, à mercê de um sonho, às ordens de seus amigos -, a imperícia ou pusilanimidade desses mesmos amigos, a perfídia dos inimigos, a intriga dos calculistas, dos oportunistas; a hipocrisia dos ministros, e o impressionante vulto de uma Rainha cujas virtudes celebradas, antes, pelos próprios réus poetas, haviam de submergir – no momento mais dramático do grande jogo – em ondas de inconsciência e loucura: para que se cumprissem nessa fantástica Vila Rica as intenções do Gênio que, assim, a protege-la e a persegui-la, a faria exorbitar de sua geografia, e feletir-se no Brasil todo, e projetar o Brasil no mundo, e transcender o mundo e universalizar-se em alado exemplo, símbolo, conceito, alegoria, recados dos deuses aos homens para seu ensinamento constante.

A escritora brasileira Cecília Meireles (Foto: Reprodução)

 A duzentos anos de distância, embora ainda velados muitos pormenores desse fantástico enredo, sente-se a imprescindibilidade daqueles encontros, de raças e homens; do nascimento do ouro; da grandeza e decadência das Minas; desses gráficos tão bem traçados de ambição que cresce e da humanidade que declina; a imprescindibilidade das lágrimas e exílios, da humilhação do abandono amargo, da morte afrontosa – a imprescindibilidade das vítimas, para a definitiva execração dos tiranos. E para que, no fim da partida – como em todas as parábolas – neste diálogo do céu com a terra, fossem obscurecidas para sempre as glórias efêmeras, e, por toda a eternidade, exaltados e glorificados os padeceram opressão e martírio...
 Quando, há cerca de 15 anos, cheguei pela primeira vez a Ouro Preto, o Gênio que a protege descerrou, como num teatro, o véu das recordações que, mais do que a sua bruma, envolve estas montanhas e estas casas -, e todo o presente emudeceu, como plateia humilde, e os antigos atores tomaram suas posições no palco. Vim com o modesto propósito jornalístico de descrever as comemorações de uma Semana Santa; porém os homens de outrora misturaram-se às figuras eternas dos andores; nas vozes dos cânticos e nas palavras sacras, insinuaram-se conversas do Vigário Toledo e do Cônego Luiz Vieira; diante dos nichos e dos Passos, brilhou o olhar de donas e donzelas, vestidas de roupas arcaicas, com seus perfis inatuais e seus nomes de outras eras. Na procissão dos vivos caminhava uma procissão de fantasmas: pelas esquinas estavam rostos obscuros de furriéis, carapinas, boticários, sacristães, costureiras, escravos – e pelas sacadas debruçavam-se aias, crianças, como povo aéreo, a levitar sobre o peso e a densidade do cortejo que serpenteava pelas ladeiras.
 Então, dos grandes edifícios, um apelo irresistível me atraía: as pedras e as grades da Cadeia contaram sua construção – o suor e os castigos incorporados aos seus alicerces; o palácio dos governadores ressoava com as irreverências de Critillo; a Casa da Ouvidoria mostrava na sombra o desembargador-poeta, louro, amoroso, suave, com um pré-romantismo inglês a amadurecer nos olhos azuis; o sobrado de Francisco de Paulo Freire de Andrade insistia em ostentar suas cortinas de damasco, em suas colchas de seda, em sua fidalguia bastarda, mas da melhor linhagem; a casa de Cláudio ressoava de suspiros a Nise, de epístolas, de sonetos em português e em italiano; o Largo de Dirceu estava cheio de mensagens à procura do palácio da Amada e das suas sonoras fontes; a igreja de Antônio Dias deixava passar Marília menina, Marília adolescente, Marília feliz, Marília triste, Marília encarquilhada, Marília morta... – A Casa dos Contos, esta casa onde o destino me faria falar, centralizava tudo isso; o cavalo do Cônego Vieira estacava à sua porta; o Alvarenga, “o tal desgraçado Alvarenga”, magistrado, poeta, minerador, entrava por ela a dentro, para cear com seu compadre João Rodrigues de Macedo, admirar a edificação recente, conspirar, jogar gamão... Assoma Tiradentes, a colocar dentes muito bem talhados no Caixeiro Vicente Vieira da Mota, guarda-livros do dono da casa... Viria o Padre Rolim, assustado com perseguições que o tinham feito sair do meio dos diamantes do Tejuco... Viria Francisco Antônio de Oliviera Lopes, tão gordo que – dizia por gracejo – valia por quatro, na conspiração que se tramava... Viria o próprio Joaquim Silvério, ávido de bens, terras, títulos, comendas, a espionar pensamentos, palavras e atos. Viria – na bruma das lendas – Cláudio Manuel, para um cubículo sob a escada, e aqui desapareceria misteriosamente.
 E assim a minha Semana Santa era aquela que eu estava acompanhando ao longo destas ruas e era muito mais antiga.
 Era, na verdade, a última Semana Santa dos Inconfidentes: a do ano de 1789.

Lembrai-vos dos altares,
destes anjos e santos,
com seus olhos audazes
nos mundos sobre-humanos.

(Haverá sombra e unidade
em vossas pálpebras tristes,
com o céu preso numa grade.)

Vede esses panos roxos
que envolvem as imagens!
Desaparecem todos
os cultos, em saudade.

(Lutuoso véu de horizonte
aguarda a fria fadiga
da vossa pálida fronte.)
Recordai pelos ares
o alvo incenso que sobe.
Que diáfana paragem
atingirá quem sofre?

(Os pensamentos mais puros
estremecerão fechados
Por inabaláveis muros.)

Oh!, como é triste a carne,
e triste o sangue, e o pranto
com que Deus se reparte,
incompreendido e manso.

(Como pedras sem ruído
cairão as vossas rezas
por desertos sem ouvido.)

Pois o amor não é doce,
pois o bem não é suave,
pois amanhã, como ontem,
é amarga, a Liberdade.

(Gemei sobre estes Ofícios,
que eles são, transfigurados,
vossos próprios sacrifícios.)

(Foto: Reprodução)

 Deixei Ouro Preto – e seguiram comigo todos esses fantasmas. Seguiram outros, que fui encontrar na comarca do Rio das Mortes: os que vivem à janela de Bárbara Heliodora, os que cercam a fonte de S. José del Rey; os que se encontram aos altares, entre anjos e santos; os que sobem aos púlpitos; os que apontam as pinturas cheias de intenções na casa do Vigário Toledo...
 E também os que por toda parte se levantam da suas cadeiras de cabiúna; os que abrem livros franceses e ingleses, que já vão sendo da Sociologia; e os que cheiram uma rosa, perto de um crucifixo; e os que discutem Virígilio e Horácio; e os que emparelham versos em forma de soneto, ode, lira; os que recordam Metestácio e os que discutem o Abade Raunal; os que conhecem Montesquieu e Voltaire e os que soletram as Horas Marianas; os que entendem de arquitetura, pintura, escultura, e os preparam a sua viagem de estudos a Coimbra...
 Tudo isto, de terra em terra, com os negros a catarem ouro e diamantes; a comerem ovos fritos, a beberem cachaça; a contarem casos de Jequitinhonha, da Chica da Silva, do Chico-Rei, de extravios, de contrabandos, de aparições e bruxarias... Tudo isto com donzelas em redor de oratórios, cantorias de terço, velas, promessas, pais prepotentes, noivos impossíveis, tremós dourados, seges de rodas vermelhas, cadeirinhas – também casamentos, saraus, vastas comidas e bebidas, canto, danças, música de órgão e de violinos... Tudo isso, e cavalhadas, luminárias -, eco das alegrias longínquas da corte, nestas paredes coloniais, já palpitantes de vida própria...
 Então, na minha cidade, a visão de Ouro Preto e lembrança de Vila Rica se sobrepunham ao cenário moderno e frívolo da vida diária: a rua Gonçalves Dias apagava seus esplendores atuais: e apenas me obrigava a contemplar a provável porta do prateiro Domingos da Cruz, por onde desceu, preso – afinal! -, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. E a rua da Assembléia gritava-me o caminho do mártir, até a forca. E a Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens contava-me a sua passagem por ali, em direção ao Paço, sob o olhar oculto do espião Joaquim Silvério. E da Ilha das Cobras, da Fortaleza da Conceição, do local da antiga cadeia, de mil pontos diversos, o nome do Alferes, o sangue do Alferes gritavam, clamavam – não a sua desgraça -, mas a enormidade daquela tragédia desenrolada entre Minas e Rio, forte, violenta, inexorável como as mais perfeitas de outros tempos, dos tempos antigos da Grécia, e que os helenos fixaram por escrito, e que até hoje servem de alta lição, para acabar de humanizar os homens.

Não posso mover meus passos
por esse atroz labirinto
de esquecimento e cegueira
em que amores e ódios vão:
- pois sinto bater os sinos,
percebo o roçar das rezas, vejo o arrepio da morte,
à voz da condenação;
- avisto a negra masmorra
e a sombra do carcereiro
que transita sobre angústias,
com chaves no coração;
- descubro as altas madeiras
do excessivo cadafalso
e, por muros e janelas,
o pasmo da multidão.

Batem patas de cavalos.
Suam soldados imóveis.
Na frente dos oratórios,
que vale mais a oração?
Vale a voz do Brigadeiro
sobre o povo e sobre a tropa,
louvando a augusta Rainha,
- já louca e fora do trono –
na sua proclamação.

Ó meio-dia confuso,
ó vinte-e-um de abril sinistro,
que intrigas de ouro e de sonho
houve em sua formação?
Quem condena, julga e pune?
Quem é culpado e inocente?
Na mesma cava do tempo
cai o castigo e o perdão.
Morre a tinta das sentenças
e o sangue dos enforcados...
- liras, espadas e cruzes
pura cinza agora são.
Na mesma cova, as palavras,
o secreto pensamento,
as coroas e os machados,
mentira e verdade estão.

Aqui, além, pelo mundo,
ossos, nomes, letras, poeira...
Onde, os rostos? Onde, as almas?
Nem os herdeiros recordam
rastro nenhum pelo chão.
Ó grandes muros sem eco,
presídios de sal e treva
onde os homens padeceram
sua vasta solidão...

Não choraremos o que houve
nem os que chorar queremos
contra rocas de ignorância
rebenta a nossa aflição.

Choramos esse mistério,
esse esquema sobre-humano,
a força, o jogo, o acidente
da indizível conjunção
que ordena vidas e mundos
em pólos inexoráveis
de ruína e de exaltação.

Ó silenciosas vertentes
por onde se precipitam
inexplicáveis torrentes,
por eterna escuridão!

(Foto: Reprodução)

 Muitas vezes me perguntei por que não teria existido um escritor do século 18 – e houve tantos, em Minas! – que pusesse por escrito essa grandiosa e comovente história. Mas a duzentos anos de distância, pode-se entender porque isso não aconteceu, principalmente se levarmos em conta a importância do traumatismo provocado por um episódio desses, em tempos de duros castigos, severas perseguições, lutas sangrentas pela transformação do mundo, em grande parte estruturada por instituições secretas, de invioláveis arquivos.
 Também muitas vezes me perguntei se devia obedecer a esse apelo dos meus fantasmas, e tomar o encargo de narrar a estranha história de que haviam participado e de que me obrigaram a participar também, tantos anos depois, de modo diferente, porém, com a mesma, ou talvez maior, intensidade.
 Sem sombra de positivismo, posso, no entanto, confirmar por experiência a verdade de que “somos sempre e cada vez mais governados pelos mortos”. Porque nesse mundo emocional que o tempo acumula todos os dias nem o mais breve suspiro se perde, se ele foi dedicado ao aperfeiçoamento da vida. Muitas coisas se desprendem e perdem – ou parecem desprendidas e perdidas – ilimitado tempo; mas outros vêm, como heranças intactas, de geração em geração, caminhando conosco, vivas para sempre, vivas e atuantes, e não lhes podemos escapar, e sentimos que não lhes podemos resisitir.
 Assim, na história da Inconfidência, o lenço do Alferes Vitoriano, a enxugar-lhe o suor da testa, na jornada entre São João e Vila Rica; o embuçado que andou por estas ruas a prevenir das prisões; o riso dos tropeiros a escarnecerem de Tiradentes; o desaforo do sapateiro Capanema, em certa noite de festa; o comentário das Pilatas, acerca de uma promessa do Alferes; a falsa indignação do Caixeiro Vicente da Mota; a lista dos seqüestros; as figuras dos meirinhos; as conversas anônimas, tudo tem importância, tudo organiza e completa o grande ato trágico – tal qual, em cena, a luz, o pano da cortina, a corda que a faz correr, os cenários que servem de fundo formam um conjunto impossível de separar; e, como no equilíbrio do universo, tudo tem seu lugar, e nada é casual nem insignificante.
 No decorrer das minhas incertezas e dos meus escrúpulos em aproximar-se de tema tão grave, os fantasmas começaram a repetir suas próprias palavras de outrora: as palavras registradas nos depoimentos do processo, ou na memória tradicional, vinham muitas vezes, e inesperadamente, já metrificadas:

“Estes branquinhos do Reino
nos querem tomar a terra:
porém, mais tarde ou mais cedo.
os deitamos fora dela...”

“Ah! se eu me apanhasse em Minas”, exclamava o Alferes, sentindo-se, no Rio, desamparado.
 Até os nomes de alguns personagens foram versos perfeitos:

“Tomás Antônio Gonzaga”
“Joaquim José da Silva Xavier”
“Dona Bárbara Heliodora...”
“Vicente Vieira da Mota...”
“Sapateiro Capanema...”
“Dona Maria Primeira...”

 O protesto de Marília, ao ouvir falar no casamento de Gonzaga, em Moçambique, se expressa num curto verso:

“Só se estivesse alienado!”

 Assim, a primeira tentação, diante do tema insigne, e conhecendo-se tanto quanto possível, através dos documentos do tempo, seus pensamentos e sua fala – seria reconstituir a tragédia na forma dramática em que foi vivida, redistribuindo a cada figura o seu verdadeiro papel. Mas se isso bastasse, os documentos oficias com seus interrogatórios e respostas, suas cartas, sentenças e defesas realizariam a obra de arte ambicionada, e os fantasmas sossegariam, satisfeitos.
 Nesse ponto descobrem-se as distâncias que separam o registro histórico da invenção poética: o primeira fixa determinadas verdades que servem à explicação dos fatos; a segunda, porém, anima essas verdades de uma força emocional que não apenas comunica fatos, mas obriga o leitor a participar intensamente deles, arrastado no seu mecanismo de símbolos, com as mais inesperadas repercussões.

(Foto: Reprodução)

 Ainda que se soubessem todas as palavras de cada figura da Inconfidência, nem assim se poderia fazer com o seu simples registro uma composição de arte. A obra de arte não é feita de tudo – mas apenas de algumas coisas essenciais. A busca desse essencial expressivo é que constitui o trabalho do artista. Ele poderá dizer a mesma verdade do historiador, porém de outra maneira. Seus caminhos são outros, para atingir a comunicação. Há um problema de palavras. Um problema de ritmos. Um problema de composição. Grande parte de tudo isso se realiza, decerto, sem inteira consciência do artista. É a decorrência natural da sua constituição, da sua personalidade – por isso, tão difícil se torna quase sempre a um criador explicar a própria criação. Quanto mais subjetiva seja ela, maior a dificuldade de explica-la – é quase impossível chorar e perceber nitidamente o caminho das lágrimas, desde as suas raízes até os olhos. No caso, porém, de um poema de mais objetividade, como o “Romanceiro”, muitas coisas podem ser explicadas, porque foram aprendidas, à proporção que ele foi se foi compondo.
 Digo “que ele se foi compondo” e não “que foi sendo composto”, pois, na verdade, uma das coisas que pude observar melhor que nunca, ao realiza-lo, foi a maneira por que um tema encontra sozinho ou sozinho impõe seu ritmo, sua sonoridade, seu desenvolvimento, sua medida.
 O “Romanceiro” foi construído tão sem normas preestabelecidas, tão à mercê de sua expressão natural que cada poema procurou a forma condizente com sua mensagem. Há metros curtos e longos; poemas rimados e sem rima, ou com rima assonante – o que permite maior fluidez à narrativa. Há poemas em que a rima aflora em intervalos regulares, outros em que ela aparece, desaparece e reaparece, apenas quando sua presença é ardentemente necessária. Trata-se, em todo caso, de um “Romanceiro”, isto é, de uma narrativa rimada, um romance: não é um “cancioneiro” – o que implicaria o sentido mais lírico da composição cantada.
 Nesse ponto, já ficara ultrapassada a idéia de uma composição dramática. Impossível distribuir a cada personagem seu verdadeiro papel: seria atribuir-lhes, por vezes, pensamentos e sentimentos incompatíveis com a sua psicologia, e dar-lhes uma linguagem que não podemos reconstituir com suficiente perfeição.
 O “Romanceiro” teria a vantagem de ser narrativo e lírico; de entremear a possível linguagem da época à dos nossos dias; de, não podendo reconstituir inteiramente as cenas, também não as deformar inteiramente; de preservar aquela autenticidade que ajusta à verdade histórica o halo das tradições e da lenda.
 A voz irreprimível dos fantasmas, que todos os artistas conhecem, vibra, porém, com certa docilidade, e submete-se à aprovação do poeta, como se, realmente, a cada instante lhe pedisse para ajustar seu timbre à audição do público. Porque há obras que exigem essa transmissão e esperam que o artista se ponha a seu serviço, para alcançá-la. O “Romanceiro” é desta segunda espécie.
 Por isso, a parte “pessoal” que nele se encontre, é uma simples intervenção para favorecer o desenvolvimento do tema: aqui, o artista apenas vigia a narrativa que parece desenvolver-se por si, independente e certa do que quer. Os “cenários” são intervenções para marcar os ambientes respectivos, exatamente numa indicação dramática. E se o artista se permite alguma reflexão sobre o que vai acontecendo, é como espectador que comenta, entre outros comentadores imaginários, ou cronista que observa, entre outros que estão observando – o que confere ao livro uma simultaneidade que se procurou assinalar até pela disposição gráfica dos versos, e pela diferença dos tipos de impressão.
 Os fantasmas sabiam, certamente, o que queriam dizer; mas o artista deve sempre desconfiar de sua capacidade de entender essas inspirações que se referem a motivos determinados, e contêm uma verdade íntima.
 Por isso, quatro anos de quase completa solidão, numa renúncia total às mais sedutoras solicitações, entre livros de toda espécie relativos ao especializadamente século 18 – ainda pareceram curtos demais para uma obra que se desejava o menos imperfeita possível – porque se impunha, acima de tudo, o respeito por essas vozes que falavam, que se confessavam, que exigiam quase o registro de sua história.
 E era uma história feita de coisas eternas e irredutíveis: de ouro, amor, liberdade, traições...
 Mas porque esses grandiosos acontecimentos já vinham preparados de tempos mais antigos, e foram o desfecho de um passado minuciosamente construído – era preciso iluminar esses caminhos anteriores, seguir o rastro do outro que vai, a princípio como fio de um colar, ligando cenas e personagens, até transformar-se em pesada cadeia que prende e imobiliza num destino doloroso.

Mil bateias vão rodando
sobre córregos escuros;
a terra vai sendo aberta
por intermináveis sulcos;
infinitas galerias
penetram morros profundos.

De seu calmo esconderijo,
o ouro vem, dócil e ingênuo;
torna-se pó, poder, engenho...
É tão claro! – e turva tudo:
honra, amor e pensamento.

Borda flores nos vestidos,
Sobe a opulentos altares,
traça palácios e pontes
eleva os homens audazes
e acende paixões que alastram
sinistras rivalidades.
Pelos córregos, definham
negros, a rodar bateias.
Morre-se de febre e fome
sobre a riqueza da terra:
uns querem metais luzentes,
outros, as redradas pedras.

Ladrões e contrabandistas
estão cercando os caminhos;
cada família disputa
privilégios mais antigos;
os impostos vão crescendo
e as cadeias vão subindo.

Por ódio, cobiça, inveja,
vai sendo o inferno traçado.
Os reis querem seus tributos
- mas não se encontram vassalos.
Mil bateias vão rodando,
mil bateias sem cansaço.

Mil galerias desabam;
mil homens ficam sepultos;
mil intrigas, mil enredos
prendem culpados e justos;
já ninguém dorme tranqüilo,
que a noite é um mundo de sustos.

Descem fantasmas dos morros,
vêm almas dos cemitérios:
todos pedem ouro e prata.
E estendem punhos severos,
mas vão sendo fabricadas
muitas algemas de ferro.

(Foto: Reprodução)

 A dois séculos de distância, o espetáculo ainda é tão assombroso que o artista se sente inibido para qualquer julgamento. Que de tão longe uma Rainha bondosa tenha causado tanto mal; que essa Rainha enlouqueça e venha a morrer no cenário final do drama; que os condenados sigam para lugares severos, e cada um tenha um fim diverso; que os fatos e pessoas deixados para trás se combinem, também, de modo tão estranho; que os perversos sejam cobertos de efêmeras recompensas; que nos esqueçam, que outros chorem; que os sonhos dos Inconfidentes se cumpram, depois de tantas sentenças; e o Brasil se torne independente dali a 31 anos, e a República seja proclamada exatamente ao cumprir-se um século sobre aquelas prisões – tudo parece impregnado de um mistério claro, desejoso de revelar-se e de se fazer compreender. O “Romanceiro” não julga. Ele é apenas um convite à reflexão. Todas as suas páginas mantêm esse desejo de equilíbrio – narrar o que foi ouvido nestes ares de Minas, especialmente nesta Ouro Preto, cheia de ressonâncias incansáveis – e apontar nessa interminável confidência o que lhe dá eternidade, o que não é somente uma palavra ocasional, local, circunstancial -, mas uma palavra de violenta seiva, atuante em qualquer tempo, desde que interpretada, como ontem os oráculos e as sibilas.
 Isto é, senhores, pouco mais ou menos o que sei do “Romanceiro da Inconfidência”, livro que ainda não acabou, pois basta-me chegar aos caminhos que vêm do Rio para Minas, para recomeçar a ouvir novas narrativas, novos clamores que vêm dos rios, das pedras, dos campos como no Cenário inicial.

Passei por essas plácidas colinas
e vi das nuvens, silencioso, o gado
pascer nas solidões esmeraldinas.

Largos rios de corpo sossegado
dormiam sobre a tarde, imensamente,
- e eram sonhos sem fim, de cada lado.

Entre nuvens, colinas e torrente,
uma angústia de amor estremecia
a deserta amplidão na minha frente.

Que vento, que cavalo, que bravia
saudade me arrastava a esse deserto,
me obrigava a adorar o que sofria?

Passei por entre as grotas negras, perto
dos arroios fanados, do cascalho
cujo ouro já foi todo descoberto.

As mesmas salas deram-me agasalho
onde a face brilhou de homens antigos,
iluminada por aflito orvalho.

De coração votado a iguais perigos,
vivendo as mesmas dores e esperanças,
a voz ouvi de amigos e inimigos.

Vencendo o tempo, fértil em mudanças,
conversei com doçura as mesmas fontes,
e vi serem comuns nossas lembranças.

Da brenha tenebrosa aos curvos montes,
do quebrado almocafre aos anjos de ouro
que o céu sustêm nos longos horizontes,

tudo me fala e entende do tesouro
arrancado a estas Minas enganosas,
com sangue sobre a espada, a cruz e o louro.

Tudo me fala e entendo: escuto as rosas
e os girassóis destes jardins, que um dia
foram terras e areias dolorosas,

por onde o passo da ambição rugia;
por onde se arrastava, esquartejado,
o mártir sem direito de agonia.

Escuto os alicerces que o passado
tingiu de incêndio: a voz dessas ruínas
de muros de ouro em fogo evaporado.

Altas capelas contam-me divinas
fábulas. Torres, santos e cruzeiros
apontam-me altitudes e neblinas.

Ó pontes sobre os córregos! ó vasta
desolação de ermas, estéreis serras
que o sol freqüenta e a ventania gasta!

Rubras, cinéreas, tenebrosas terras
retalhadas por grandes golpes duros,
de infatigáveis, seculares guerras...

Tudo me chama: a porta, a escada, os muros,
as lajes sobre mortos ainda vivos,
dos seus próprios assuntos inseguros.

Assim viveram chefes e cativos
um dia, neste campo, entrelaçados
na mesma dor, quiméricos e altivos.

E assim me acenam por todos os lados.
Porque a voz que tiveram ficou presa
na sentença dos homens e dos fados.

Cemitérios das almas... – que tristeza
nutre as papoulas de tão vaga essência?
(Tudo é sombra de sombras, com certeza...)

O mundo, veja e inábil aparência
que se perde nas lápides escritas,
sem qualquer consistência ou conseqüência.

Vão-se as datas e as letras eruditas
na pedra e na alma, sob etéreos, ventos,
em lúcidas venturas e desditas.

E são todas as coisas uns momentos
de perdulária fantamasgoria,
- jogo de fugas e aparecimentos.)

Das grotas de ouro à extrema escadaria,
por asas de memória e de saudade,
com o pó do chão meu sonho confundia.

Armado pó que finge eternidade,
lavra imagens de santos e profetas
cuja voz silenciosa nos persuade.

E recompunha as coisas incompletas:
figuras inocentes, vis, atrozes,
vigários, coronéis, ministros, poetas.

Retrocedem os tempos tão velozes
que ultramarinos árcade pastores
falam de Ninfas e Metamorfoses.

E percebo os suspiros dos amores
quando por esses prados florescentes
se ergueram duros punhos agressores.

Aqui tiniram ferros de correntes;
pisaram por ali tristes cavalos.
E enamorados olhos refulgentes

- parado o coração por escutá-los –
prantearam nesse pânico de auroras
densas de brumas e gementes galos.

Isabéis, Dorotéias, Eliodoras,
ao longo desses vales, desses rios,
viram as suas mais douradas horas

em vasto furacão de desvarios
vacilar como em caules de altas velas
cálida luz de trêmulos pavios.

Minha sorte se inclina junto àquelas
vagas sombras da triste madrugada
fluidos perfis de donas e donzelas.

Tudo em redor é tanta coisa e é nada:
Nise, Anarda, Marília... – quem procuro?
Quem responde a essa póstuma chamada?

Que mensageiro chega, humilde e obscuro?
Que cartas se abrem? Quem reza ou pragueja?
Quem foge? Entre que sombras me aventuro?

Que soube cada santo em cada igreja?
A memória é também pálida e morta
Sobre o qual nosso amor saudoso adeja.

O passado não abre a sua porta
e não pode entender a nossa pena.
Mas, nos campos sem fim que o sonho corta,

vejo uma forma no ar subir serena:
vaga forma, do tempo desprendida.
É a mão do Alferes, que de longe acena.

Eloqüência da simples despedida:
“Adeus! que trabalhar vou para todos!...”
(Esses adeus estremece a minha vida.)

(Foto: Reprodução)

 Nem me são indiferentes os próprios animais. E os cavalos que encontro na paisagem acordam todos os cavalos de outrora, a transportarem recados, presságios, prisioneiros, defuntos, por estas terras, em todas as gerações.

Eles eram muitos cavalos,
ao longo dessas grandes serras,
de crinas abertas ao vento,
a galope entre águas e pedras.
Ele eram muitos cavalos,
donos dos ares e das ervas,
com tranqüilos olhos macios,
habituados às densas névoas,
aos verdes prados ondulosos,
às encostas de árduas arestas,
à cor das auroras nas nuvens,
ao tempo de ipês e quaresmas.

Eles eram muitos cavalos
nas margens desses grandes rios
por onde os escravos cantavam
músicas cheias de suspiros.
Ele eram muitos cavalos
e guardavam no fino ouvido
o som das catas e dos cantos,
a voz de amigos e inimigos.
- calados, ao peso da sela.
picados de insetos e espinhos,
desabafando o seu cansaço
em crepusculares relinchos.

Eles eram muitos cavalos,
- rijos, destemidos, velozes –
entre Mariana e Serro Frio,
Vila Rica e Rio das Mortes.
Eles eram muitos cavalos,
transportando no seu galope
coronéis, magistrados, poetas,
furriéis, alferes, sacerdotes.
E ouviram segredos e intrigas,
e sonetos e liras e odes:
testemunhas sem depoimento,
diante de equívocos enormes.

Eles eram muitos cavalos,
entre Mantiqueira e Ouro Branco,
desmanchando o xisto nos cascos,
ao sol e à chuva, pelos campos,
levando esperanças, mensagens,
transmitidas de rancho em rancho.
Eles eram muitos cavalos;
entre sonhos e contrabandos.
alheios às paixões dos donos,
pousando os mesmos olhos mansos
nas grotas, repletas de escravos,
nas igrejas, cheias de santos.

Ele eram muitos cavalos:
e uns viram correntes e algemas,
outros, o sangue sobre a forca,
outros, o crime e as recompensas.
Eles eram muitos cavalos:
e alguns foram postos à venda,
outros ficaram nos seus pastos,
e houve uns que, depois da sentença,
levaram o Alferes cortado
em braços, pernas e cabeça.
E partiram com sua carga
na mais dolorosa inocência.

Eles eram muitos cavalos:
e morreram por esses montes,
esses campos, esses abismos,
tendo servido a tantos homens.
Eles eram muitos cavalos,
mas ninguém mais sabe os seus nomes,
sua pelagem, sua origem...
E iam tão alto, e iam tão longe!
E por eles se suspirava,
consultando o imenso horizonte!
- Morreram seus flancos robustos,
que pareciam de ouro e bronze.

Ele eram muitos cavalos.
E jazem por aí, caídos,
misturados às bravas serras,
misturados ao quartzo e ao xisto,
à frescura aquosa das lapas,
ao verdor do trevo florido.
E nunca pensaram na morte.
E nunca souberam de exílios.
Eles eram muitos cavalos,
cumprindo seu duro serviço.
E cinza de seus cavaleiros
neles aprendeu tempo e ritmo,
e a subir aos picos do mundo...
e a rolar pelos precipícios...

(Foto: Reprodução)

 Dentre muitos romances ainda inéditos, pareceu-me que seria de algum interesse para os que me deram a honra de aqui comparecer, apresentar um que se refere à triste Marília envelhecida – romance que procura fixar, de um lado, a irremediável destruição do tempo e, de outro, essa dureza com que tantos autores exprobraram à dolorida anciã a sua sobrevivência, a sua longevidade, depois de tantos acontecimentos terríveis, em redor de sua juventude e de sua beleza.
 Com essa leitura, terminarei esta pequena palestra, desculpando-se ainda mais uma vez pela modesta contribuição trazida, com ela, à esplêndida semana em que tão justamente se glorifica o Alferes imortal, radiosa expressão dos mais altos sonhos desta cidade, do Brasil e do próprio mundo.
 Agradeço-vos a gentileza de me haverdes feito participar de tão significativas festas, e aqui deponho este poema como um ramo de flores sobre esta cidade – como um ramo de puro amor.


Extraído de:
MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência. 7ª edição. Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 1989.



*Conferência proferida na Casa dos Contos, em Ouro Preto, por Cecília Meireles, no 1º Festival de Ouro Preto, em 20 de abril de 1955.

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

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