A moda no Brasil colonial

Por Rafaella Britto


A moda contribui sobremaneira para o estudo e compreensão da formação das sociedades. E dentre os períodos da história brasileira, um merece especial atenção: a Colônia. Foi nesta época em que começou a delinear-se o que hoje conhecemos como a sociedade brasileira, resultado da fusão de elementos culturais diversos que influenciaram nosso agir, nosso falar e nosso vestir.

"Caçador de Escravos", Jean-Baptiste Debret (1820-1830) (Reprodução/Museu de Arte de São Paulo)

Em 1500, os colonizadores portugueses aterrissaram em terras tupiniquins, habitadas por milhares de etnias indígenas. Os indígenas brasileiros (à época, denominados peles-vermelhas) andavam nus, e sua caracterização visual consistia em pinturas corporais feitas a partir de tintas naturais como o urucum e o jenipapo, e adornos confeccionados com penas de aves. Em sua carta ao Rei de Portugal, o viajante Pero Vaz de Caminha observa: “Andam nus, sem nenhuma cobertura (...) Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros, de comprimento duma mão travessa, da grossura dum fuso de algodão, agudos na ponta como um furador. (...) E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas.” (1)

"Dança dos Tapuias", de Albert Eckhout (Reprodução)

Os europeus, escandalizados pelo modo de viver dos nativos, introduziram às novas terras as práticas ocidentais, dentre elas, o hábito de vestir-se. Data desta época o interesse pela indumentária como elemento cultural, e ilustradores europeus como Wencelaus Hollar reproduziam em gravuras a moda dos índios americanos.
Entretanto, somente a partir de 1600 a Colônia ganha fisionomia própria e pode-se falar em uma identidade cultural brasileira. (2) Em 1636, nasce em Salvador o primeiro poeta brasileiro, Gregório de Matos. Advogado, Matos tornou-se conhecido como o “Boca do Inferno” devido a sua poesia satírica que não perdoava senhores, freiras ou sacerdotes. O baiano desfilava pelas ruas vestindo modelos extravagantes, e até mesmo o seu escritório de advogado era decorado com bananas, demonstrando seu sentimento de ufania nacional.

Gregório de Matos, expoente do barroco brasileiro (Reprodução/Tumblr)

Uma sociedade de contrastes

Durante muito tempo, a moda esteve atrelada ao conceito de hierarquia. A elite, composta por senhores de engenho e grandes proprietários de terra, buscava maneiras de distinguir-se socialmente, e aguardava ansiosamente os navios vindos da Europa para ter acesso às novidades sobre a moda vigente em países como Inglaterra, Espanha, Itália, e, sobretudo, França (que, a partir de 1650, passou a ditar moda em toda Europa). Os tecidos, materiais muito valorizados pela fidalguia, eram importados de Portugal e vendidos a altos preços pelos mercadores no Brasil.

Gravura de Jean-Baptiste Debret (Reprodução)

A nobreza era conhecida por seus excessos. Como escreveu a historiadora Mary del Priore em seu livro “Uma Breve História do Brasil”: “À rigidez da casa opunha-se, em dias de festa, o exagero das vestimentas. ‘vestem-se, e as mulheres e os filhos de toda a sorte de veludos, damascos e outras sedas, e nisso tem muito em excesso (…) os guiões e selas dos cavalos eram das mesmas sedas que iam vestidos’, comentava um enlevado Cardim, na fase de expansão canavieira”. (3)

Gravura de Jean-Baptiste Debret (Reprodução)

As mulheres não participavam ativamente da vida política e social. As nobres eram impedidas de sair de suas casas, e só podiam fazê-lo acompanhadas de um homem (que podia ser esposo, irmão ou outro parente do sexo masculino) e de sua mucama, para irem a procissões, igrejas, celebrações religiosas ou eventos políticos. Quando saíam, utilizavam, por cima das gloriosas joias e roupas de luxo, uma mantilha de sarja, renda ou lã.

Gravura de Jean-Baptiste Debret (Reprodução)

Já o ambiente doméstico dispensava opulência: livrando-se da rigidez dos corpetes, usava-se uma espécie de camisola ou bata decotada, de comprimento longo, mangas curtas e tecido leve (algumas vezes, vestindo saias por baixo). Os homens, por sua vez, abandonavam as meias, as casacas e os coletes, e vestiam-se de maneira despojada, com camisas por fora dos calções, ou, às vezes, somente ceroulas e chinelos.

"O passatempo dos ricos depois do jantar", gravura de Jean-Baptiste Debret (Reprodução)

Os nobres eram também responsáveis pela vestimenta de seus escravos. “Não foram poucos os cronistas e viajantes a observar que os escravos cobriam-se, geralmente, com muito pouco.”, escreve del Priore. “A Igreja admoestava os senhores para que evitassem trazê-los “indecentemente vestidos”, como se queixava o jesuíta Jorge Benci. As mulheres vestiam saia e blusa feitas com panos de Surrate ou baeta, e os homens usavam apenas calça, permanecendo sem camisa.” (4)

"Gravura de Jean-Baptiste Debret" (Reprodução)

Os escravos dos ambientes domésticos vestiam-se à maneira de seus senhores, e quanto melhor vestido o servo, maior o status conferido ao seu amo. Os que executavam tarefas fora do ambiente doméstico utilizavam somente calções em tecido semelhante ao algodão cru, que logo desfazia-se em trapos.

"Um jantar brasileiro", de Jean-Baptiste Debret (1827) (Reprodução)

Os escravos alforriados encontravam no comércio uma alternativa para a sobrevivência. As mulheres submetiam-se, muitas vezes, a prostituição. Durante o período colonial, o negro liberto, habitante do meio urbano, utiliza turbantes, tecidos de motivos africanos e elementos que reafirmam sua identidade.

"Roda de Capoeira", de Rugendas (Reprodução)

Tendo acumulado um pequeno capital, os escravos alforriados passaram a adquirir mercadorias. A pompa de negras como Chica da Silva escandalizou a nobreza: escrava alforriada, Chica da Silva, durante mais de 15 anos, viveu em união estável com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, com quem teve 13 filhos. Chica tornou-se conhecida por seu estilo marcado pelo luxo e a ostentação.

"Chica da Silva", autor desconhecido (Reprodução)

Entre 1699 e 1710, a nobreza, temendo a quebra da hierarquia social, criou uma lei impedindo que negros (escravos ou forras) e mulatos usassem brocados, sedas, joias e adereços de ouro. A lei, entretanto, não foi cumprida.

"Loja de Barbeiro", de Jean-Baptiste Debret (Reprodução)

Expoente da moda colonial, a princesa Carlota Joaquina (imagem de abertura) – também conhecida como “A Megera de Queluz” - era temida por sua língua ferina. Segundo depoimentos, Carlota era feia, possuía buço espesso, pele grossa e cabelos sujos. “Eram joias maravilhosas”, escreveu a marquesa de Abrantes, esposa do general Jean-Andoch Junot, acerca de suas primeiras impressões da princesa, “mas o rosto que emolduravam era tão horrível que lhes eclipsava a beleza. Tive a impressão de estar diante de algum ser estranho à nossa espécie”. Carlota Joaquina amaldiçoava o Brasil, ‘terra de negros e macacos’, e, reza a lenda, ao partir das terras tupiniquins, bateu as solas dos sapatos no porto e declarou: “Deste país, não quero levar nem o pó!”


Referências:

(1) (PDF) DE CAMINHA, Pero Vaz. Carta a El-Rei D. Manuel. Fundação Bilioteca Nacional (disponível em http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/livros_eletronicos/carta.pdf);
(2) DE ANDRADE, Fernando Teixeira. Coleção Objetivo - Sistema de Métodos de Aprendizagem - Vol. 14: Literatura I. CERED - Centro de Recursos Educacionais;
(3) (4) (PDF) DEL PRIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato. Uma Breve História do Brasil. Editora Planeta, 2010 (disponível em http://portalconservador.com/livros/Renato-Venancio-Uma-Breve-Historia-do-Brasil.pdf);

Imagem de abertura: Carlota Joaquina em 1785, por Mariano Salvador Maella (Reprodução)

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

Um comentário:

  1. A moda e o vestir nos contam tanto a respeito da saga do homem sobre a Terra!Neste breve artigo - que, aliás, deixou um gosto de "quero mais" de tão saboroso e leve o texto, e interessante o tema - temos um relato "en passant" do início de nossa modelagem sociocultural, multi-étnica, marcada pela gradual transformação da fisionomia sociológica do país, por assim dizer (a incorporação de mentalidade burguesa e introdução de maior liberdade de expressão de traços culturais afros). Parabéns, Rafinha, por mais esta contribuição cultural! Beijo e Paz!

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