O feminismo na obra de Lygia Fagundes Telles

Por Rafaella Britto

(Foto: Reprodução)

“A função do escritor? Ser testemunha do seu tempo e da sua sociedade. Escrever por aqueles que não podem escrever. Falar por aqueles que muitas vezes esperam ouvir da nossa boca a palavra que gostariam de dizer. Comunicar-se com o próximo e se possível, mesmo por meio de soluções ambíguas, ajuda-lo no seu sofrimento e na sua esperança.”

No panteão da literatura universal, a escritora Lygia Fagundes Telles, galardoada com o título de ‘imortal’ pela Academia Brasileira de Letras, coleciona memórias, vivências e desejos que desenrolam-se na veemente linguagem de sua obra: nascida na rua Barão do Bananal, capital paulista, em 19 de abril de 1922, cresceu nos interiores do estado, devido à profissão do pai, Durval de Azevedo Fagundes, promotor público e delegado. Com o pai, Lygia aprendeu "a linguagem do sonho”: “Essa primeira figura me ensinou o sonho – disse ela no documentário “Narrarte”, de 1989, dirigido por seu filho, Goffredo Telles Neto – “Foi a lição do sonho que eu tive. Ele era jogador, apostava nos números. Eu, por exemplo, herdei dele isso, eu aposto nas palavras, eu jogo com as palavras, que é o jogo perigoso.”

A escritora Lygia Fagundes Telles na década de 1940
(Foto: Reprodução)

Durante a adolescência como “garota de boina”, após a separação dos pais, em 1938, a escritora publicou seu primeiro livro de contos, “Porão e Sobrado”. Os primeiros livros, entretanto, seriam, posteriormente, excluídos de suas obras, por serem considerados pela autora como imaturos e precipitados. “Juvenilidades” – alegou. Durante a década de 1940, Lygia formou-se na Escola Superior de Educação Física, em São Paulo, e logo após, ingressou na conservadora Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Neste período, frequentou a cena literária paulistana, tornou-se amiga da poetisa Hilda Hilst e próxima dos escritores modernistas Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Carlos Drummond de Andrade.

Hilda Hilst e Lygia F. Telles na década de 1940
(Foto: Reprodução)

Conhecedora da alma de mulher, em sua obra, Lygia louva as virtudes femininas: feminista tempos antes da estruturação do movimento, no auge do Estado Novo, trabalhou no Departamento Agrícola do Estado de São Paulo, para sua própria subsistência, e ignorou a previsão pessimista de sua mãe, que dissera-lhe: “Você já entrou para uma escola de homens. Vai publicar um livro. Agora você não casa mais.” No livro “A Disciplina do Amor”, a escritora descreve a posição da crítica diante de suas primeiras publicações:

 “Um crítico literário do século XIX, irritado com o livro de uma poetisa que ousou sugerir em seus poemas alguns anseios políticos, escreveu no seu artigo: ‘É desconsolador quando se ouve a voz delicada de uma senhora aconselhando a revolução. Por mim, desejaria que a poetisa estivesse sempre em colóquios com as flores, com as primaveras, com Deus.’
 Mexendo em antigas pastas na tentativa (vã) de ordená-las, acabei encontrando o recorte de uma crônica publicada em 1944. É sobre um pequeno livro de contos que escrevi quando cursava a Faculdade de Direito. Diz o cronista que assinava M.G.: ‘Tem essa jovem páginas que apesar de escritas com pena adestrada, ficariam melhor se fossem da autoria de um barbado.’
 Afetei um certo desdém pela crônica mas fiquei felicíssima: escrever um texto que merecia vir da pena de um homem, era o máximo para a garota de boina de 1944. Eu trabalhava, estudava e escolhera dois ofícios nitidamente masculinos: era uma feminista inconsciente mas feminista.”

Lygia Fagundes Telles em fotografia datada de 20 de agosto de 1949
(Foto: Chico Albuquerque)

Paulo Emilio Sales Gomes e Lygia F. Telles
(Foto: Reprodução)
Lygia casou-se pela primeira vez em 1950 com seu professor da Faculdade de Direito, o jurista e deputado federal Goffredo da Silva Telles Jr., pai de seu único filho, o cineasta Goffredo Telles Neto. Após o casamento, mudaram-se para o Rio de Janeiro, onde situava-se a Câmara Federal.
O marco de sua maturidade intelectual deu-se em 1954, com a publicação do romance “Ciranda de Pedra”. Pouco após, em 1962, ainda formalmente casada com Goffredo, envolve-se com o militante político, crítico cinematográfico e fundador da Cinemateca Brasileira, Paulo Emilio Sales Gomes. Após a morte de Paulo Emilio, em 1977, a escritora assumiu a presidência da Cinemateca.

Vencedora  do Grande Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiros, na França, e do Prêmio Camões (dentre outros), a força de suas personagens femininas, dominadoras de suas histórias e vistas defronte intensos dramas morais, são expressas em romances como “As Meninas” – sua obra máxima: em “As Meninas”, escrito no ano de 1973 e vencedor do Prêmio Jabuti de 1974, Lygia apresenta técnica narrativa pouco usual, expondo suas reflexões acerca da Ditadura Militar através dos conflitos e intimidades de três jovens amigas: Lorena, Lia e Ana Clara. A obra foi adaptada para o cinema em 1995, tendo as atrizes Adriana Esteves, Drica Moraes e Claudia Liz (vencedora do prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cinema Latino-Americano de Cuba) como protagonistas.
Através de sua obra, Lygia F. T. desnuda o espírito humano, e seus escritos tornam-se de fundamental importância para a compreensão da figura feminina na história. “A experiência transforma-se em ficção na medida mesmo em que a escritora decanta no íntimo as etapas vividas com a plenitude de uma sensibilidade fora do comum, de uma imaginação avassaladora, de uma escrita que se amolda docilmente à linguagem de seu tempo”, escreveu José Geraldo Nogueira Moutinho. Leia, a seguir, reflexões feministas de Lygia Fagundes Telles, extraídas da primeira edição do livro “A Disciplina do Amor”, coletânea de fragmentos publicada em 1980:

(Foto: Reprodução)

 “Quando mocinhas, elas podiam escrever seus pensamentos e estados d’alma (em prosa e em verso) nos diários de capa acetinada com vagas pinturas representando flores ou pombinhos brancos levando um coração no bico. Nos diários mais simples, cromos coloridos de cestinhos floridos ou crianças abraçadas a um cachorro. Depois de casadas, não tinha mais sentido pensar sequer em guardar segredos, que segredo de mulher casada só podia ser bandalheira. Restava o recurso do cadernão do dia-a-dia, onde, de mistura com os gastos da casa cuidadosamente anotados e somados no fim do mês, elas ousavam escrever alguma lembrança ou confissão que se juntava na linha adiante com o preço do pó de café e da cebola.
 Os cadernos caseiros da mulher-goiabada. Minha mãe guardava um desses cadernos que pertencera à minha avó Belmira. Me lembro da capa dura, recoberta com um tecido de algodão preto. A letrinha vacilante, bem desenhada, era menina quando via minha mãe recorrer a esse caderno para conferir uma receita de doce ou a receita de um gargarejo. ‘Como mamãe escrevia bem! – observou mais de uma vez. – Que pensamentos e que poesias, como era inspirada!’
 Vejo nas tímidas inspirações desse cadernão (que se perdeu num incêndio) um marco das primeiras arremetidas da mulher brasileira na chamada carreira das letras – um ofício de homem.”

A jovem Lygia F. Telles
(Foto: Reprodução)

 “Volto de uma reunião feminista. Exaltação e fervor na maioria das participantes. De resto, a mesma confusão de toda revolução ainda no início. Discussões bizantinas em torno de palitos quando o essencial... Muita vontade de afirmação pessoal, muita vontade de poder na mesma linha machista. Digressões e agressões desnecessárias. Algumas das revolucionárias sabem. Mas são poucas as que sabem e desenvolvem um raciocínio claro. Na maioria, a perplexidade, fico comovida. Mas não tem importância, nenhuma importância a confusão e os desencontros de direção e de linguagem: quando na Torre de Babel alguém pedia uma tábua atiravam um tijolo. Toda revolução desse tipo tem que ir mesmo por paus e pedras, nenhum prejuízo nisso, pois não é o próprio sistema que está sendo resolvido? Não tem ainda a revolução uma base na massa mas esse fato também me parece normal, ocorre o mesmo em todas as partes do mundo onde se levantou a bandeira. Tempo de espera.”

(Foto: Reprodução)

 “Volto (ainda e sempre) a Simone de Beauvoir e dela destaco esta frase, marco elementar desde o início da luta: ‘Somente o trabalho fora do lar é capaz de ajudar a plena realização psíquica e social da mulher’.
 E a retaguarda dessa mulher que vai trabalhar fora? Como fica essa retaguarda? A professora Moema Toscano dá a resposta certa: ‘Enquanto não se superar a necessidade da empregada doméstica (como acontece nos países desenvolvidos) eu não acredito que possa haver um feminismo no Brasil.’”


(Foto: Reprodução)


 “Revejo algumas notas que andei escrevendo em torno das condições em que o naturalista Auguste de Saint-Hilaire encontrou a mulher brasileira nas viagens que fez ao Brasil, por volta de 1819: ‘As mulheres da zona do Rio Grande, e em geral, da comarca de São João, mostram-se um pouco mais do que as de outras partes das Minas; todavia, como isto não é uso geralmente admitido, e as que aparecem diante dos hóspedes só o fazem calcando um preconceito, mostram muitas vezes uma certa audácia que tem qualquer coisa de desagradável. Aqui, como no resto da província, as donas-de-casa e suas filhas enfiavam cautelosamente o rosto entre a parede do quarto em que eu me achava e pela porta entreaberta a fim de me ver escrever ou examinar plantas, e, se eu me voltava de repente, percebia vultos que se retiravam apressadamente. Cem vezes representaram essa comédia.’ E mais adiante: ‘Passara, em duas vezes diferentes, cerca de sessenta dias em casa de um fazendeiro, extremamente distinto, que me testemunhava amizade e pelo qual também professava estima e apreço. Pouco antes de nos separarmos para sempre, ele me disse com um embaraço: ‘Está surpreso, sem dúvida, meu amigo, de que minhas filhas não se tenham jamais mostrado ao senhor; detesto o costume que me obriga a afastá-las, mas não poderia subtrair-me a ele sem prejudicar-lhes o casamento...’ Aliviei de um grande peso esse homem respeitável, respondendo-lhe que eu estava longe de o desaprovar, que não se devia jamais atacar bruscamente as idéias estabelecidas, que era necessário deixar o tempo agir, e que pouco a pouco ele traria uma feliz mudança. Parece que essa ainda não chegou: pois o Sr. Gardner, cuja viagem é recentíssima, relata que foi recebido com a mais amável hospitalidade em uma fazenda onde eu próprio fora dignamente acolhido mas não vira a senhora da casa. Tornada mais idosa, viajante inglês, mas as suas filhas se esconderam, como ela também o fizera na sua mocidade.’
 Ainda um episódio narrado por um amigo de A.S.H., hóspede numa fazenda onde o fazendeiro estava doente: ‘Deram-me de jantar; mas como a dona da casa não queria se mostrar, deslizava com a filha por trás do engenho e introduziam os pratos de comida por um buraco.’
 Das ajuizadas ponderações do visitante naturalista, destaco isto: ‘Não se devia jamais atacar bruscamente as idéias estabelecidas, que era necessário deixar o tempo agir, e que pouco a pouco ele traria uma feliz mudança.’
 Seria possível essa feliz mudança sem a revolução feminista? Jamais. Apesar de todos os equívocos e deformações decorrentes de qualquer revolução, o desafio feito ao universo feminino amadureceu e explodiu inadiável. Inevitável. As demagogias e os erros naturais da inexperiência não prejudicam a causa. ‘Estou nascendo’, disse uma jovem universitária com cara de Capitu. ‘Posso nascer sossegada?’” 

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

3 comentários:

  1. Maravilhosa! Lygia é sem dúvidas uma das mais incríveis escritoras da história.Um orgulho ter ela como representante da Literatura Brasileira. ♥

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  2. Maravilhosa! Lygia é um orgulho para a Literatura Brasileira.Sem dúvidas, é uma das mais importantes escritoras da história.♥

    O post ficou uma pérola.Muito bom mesmo.

    Beijos

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