As vozes perdidas dos astros do cinema mudo

Por Rafaella Britto


Pola Negri (Foto: Reprodução)

Dentre os elementos que intensificam o singular encanto dos atores e atrizes do cinema mudo, está o mistério acerca de suas vozes. O desenvolvimento da tecnologia de gravação de som iniciou-se no século 19, quando Thomas Edison, em 1878, patenteou o primeiro aparelho de gravação sonora por meio de uma agulha que riscava cilindros de cera. Os cilindros foram vigentes no mercado consumidor até a década de 1910, porém foram logo substituídos pelo gramofone (patenteado pelo inventor norte-americano Emile Berliner), cujos discos armazenavam até duas canções. Entretanto, o sistema de gravação e reprodução sonora não foi perfeito até o advento do cinema falado, em 1929.
Graças a tecnologia, é possível, na atualidade, recuperar registros históricos e torná-los acessíveis ao domínio público: na internet, têm-se acesso a registros de programas de rádio que vigoraram na década de 1930. Nestas raras gravações, são reveladas as vozes de míticas estrelas como Theda Bara e Norma Talmadge.




O famoso galã do cinema mudo, Rodolfo Valentino, encantou as mulheres de seu tempo por seu charme tímido, timbre de barítono e sotaque ítalo-americano. Sua amiga, a atriz Gloria Swanson, costumava dizer que Rudy tinha um “sotaque delicioso”, e outras personalidades que conviveram com o astro concordavam com ela. Margaret Mitchell (autora de “...E O Vento Levou”), disse, certa vez: “Ah, a voz dele! Era o seu charme. Baixa e rouca, com um sotaque sibilante incrivelmente fácil de se ouvir (...) Certamente, se Valentino tivesse vivido, ele poderia transitar para o cinema falado, provavelmente nos mesmos papéis que já desempenhava”.  
É possível desfrutar do "sotaque delicioso" de Valentino em duas canções gravadas no ano de 1923: a primeira chama-se "El Relicario", música-tema do filme "Sangue e Areia" (Blood and Sand), de 1922. A segunda chama-se "Kashmiri Love Song" (Pale Hands I Loved), música-tema do filme "O Xeique" (The Sheik), de 1921. Valentino tocou viola em ambas as gravações.
Devido ao sotaque carregado do ator italiano e a tecnologia do período, as letras tornam-se de difícil compreensão: "El Relicario", cantada em espanhol, foi composta em 1914 pelo maestro espanhol Jose Padilla. A letra de Armando Oliveros e José Maria Castellví trata sobre o heroísmo de um toureiro. "El Relicario" foi reinterpretada por inúmeros artistas, incluindo a atriz mexicana Sara Montiel, na década de 1950.


"Kashmiri Love Song" (Pale Hands I Loved) foi composta no ano de 1902 pela chilena Amy Woodforde-Finden, baseada em poema de Laurence Hope (pseudônimo da poetisa inglesa Adela Florence Nicolson). "Kashmiri Love Song" foi uma das mais populares canções de todo o mundo até a Segunda Guerra Mundial.


Poucos atores do cinema mudo sobreviveram à mudança dos tempos, uma vez que desenvolviam a pantomima e habilidades corporais, em detrimento das vocais. A “queridinha da América”, Mary Pickford, obteve algum sucesso em sua estreia no cinema falado, conquistando o Oscar de Melhor Atriz por “Coquete” (1929). Já Douglas Fairbanks recebeu a novidade dos talkies sem grande entusiasmo, pois suas habilidades atléticas declinaram – em parte devido ao excessivo consumo de cigarro pelo ator. Juntos, Mary Pickford e Doug Fairbanks (à época, casados) realizaram alguns filmes que não cativaram as audiências do período pré-código Hays. A mais conhecida empreitada do casal no cinema falado é a adaptação da comédia shakespeariana “A Megera Domada” (Taming of the Shrew), de 1929, dirigida por Sam Taylor. 


A qualidade vocal da ‘it’ girl Clara Bow (cuja carreira encerrou-se em 1933) nos filmes falados “The Wild Party”, “Dangerous Curves” e “The Saturday Night Kid” (ambos de 1929) foi aclamada pelo público. Bow, no entanto, como a maioria dos artistas do cinema mudo, considerava o cinema falado uma arte menor: “Eu odeio cinema falado... é rigoroso e limitante. Você perde muito da sua fofura, porque não há chance de ação, e ação é a coisa mais importante para mim”.

Clara Bow em cena de "Dangerous Curves" (Lothar Mendes, 1929):


Charles 'Buddy' Rogers esbanja talento como cantor no musical "Follow Thru", de 1930 - o segundo filme da Paramount Pictures a ser inteiramente filmado em Technicolor.


Lillian Gish teve sucesso razoável no início do cinema falado, uma vez que sua imagem cândida e ingênua, e interpretação dramática, passaram a ser caracterizados, nas sarcásticas palavras de Louise Brooks, como “parvos, antiquados e assexuados”. O produtor Louis B. Mayer tencionava criar um escândalo publicitário para reavivar a carreira de Gish, porém a atriz recusou-se e retornou a sua grande paixão: o teatro. Durante a década de 1930 e início de 1940, Lillian fez poucas aparições no cinema. No teatro, as mais aclamadas interpretações de sua carreira neste período foram a de Ofélia, na peça “Hamlet”, de Shakespeare, e Marguerite em “A Dama das Camélias”, de Alexandre Dumas Filho. A atriz reapareceu nas telas em 1946, no western “Duelo ao Sol”, protagonizado por Gregory Peck e Jennifer Jones. Gish interpreta o sublime papel da senhora Laura Belle McCanles, pelo qual conquistou uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.

Lillian Gish na comédia dramática "His Double Life" (Arthur Hopkins, 1933):


Em 1937, Pola Negri demonstrou sua potência vocal no filme alemão "Tango Notturno" (dirigido por Fritz Kirchhoff), interpretando a canção "Ich hab' an dit gedatch", composta por Hans-Fritz Beckman e Hans-Otto Borgmann. O papel de Pola fora inicialmente destinado a Marlene Dietrich, porém a polaca soube interpretá-lo com maestria, e a canção-tema tornou-se um hit em sua voz.


A inesquecível Louise Brooks pôs ponto final a sua carreira cinematográfica após o lançamento de seu primeiro filme falado, o drama policial “O Drama de Uma Noite” (“The Canary Murder Case”, 1929), estrelado por William Powell. A película foi inicialmente filmada como um filme mudo e, posteriormente, dublada. Sob o pretexto de que não tinha obrigações com a Paramount, Brooks recusou a oferta de $ 10.000 para dublar sua personagem, e retornou a Alemanha para trabalhar novamente ao lado do cineasta G.W. Pabst (por quem foi dirigida “A Caixa de Pandora”, tornando-se um mito eterno do cinema). A Paramount ameaçou envolvê-la em escândalos, dizendo que ela jamais poderia voltar a trabalhar em Hollywood, ao que a musa - de língua afiada - reagiu: “Quem quer trabalhar em Hollywood?”. Em “O Drama de Uma Noite”, sua voz foi dublada pela atriz Margaret Livingston.
Impossibilitada de atuar na Alemanha devido à ascensão do nazismo, Brooks retornou aos EUA, porém foi recusada para papéis em Hollywood, pois os estúdios espalharam o boato de que sua voz era feia. Assim, Louise passou a interpretar papéis irrelevantes em comédias como “God’s Gift to Women” (1931) e filmes B como “Overland Stage Raiders”, com John Wayne. Em “Overland Stage Raiders”, Brooks fez sua última aparição no cinema, e, ao ser indagada, sobre por que aceitara o papel, respondeu que “precisava de trezentos dólares”.

Louise Brooks em cena de “God’s Gift to Women” (Michael Curtiz, 1931):


Dentre os que se mantiveram no estrelato mesmo após o advento do cinema falado, estão Norma Shearer, Joan Crawford, William Powell e Greta Garbo – cuja rouca voz afrodisíaca consolidou-a como deusa da sensualidade, mistério e beleza. 

Greta Garbo em cena de "Grand Hotel" (Edmund Goulding, 1932):



Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

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