O multitalentoso Leonardo Villar

Por Rafaella Britto


Para os amantes da Sétima Arte aficionados pelas produções nacionais, o nome de Leonardo Villar é inesquecível: ator mundialmente consagrado, estreou no cinema em 1962, interpretando o devoto sertanejo Zé do Burro, astro do clássico filme “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, adaptação da peça homônima de Dias Gomes. “O Pagador de Promessas” é o primeiro e, ainda hoje, o único filme brasileiro vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, sendo, por conta disto, a produção nacional mais laureada em todo o mundo.

Leonardo Villar e Glória Menezes em "O Pagador de Promessas" (Anselmo Duarte, 1962) - (Foto: Reprodução)

Leonardo Villar fez história no cinema e na dramaturgia brasileiros. Ao todo, atuou em 14 filmes, de 1962 a 2000, e em dezenas de novelas e peças teatrais. Dentre seus sucessos no cinema, estão “A Madona de Cedro” (Carlos Coimbra, 1968) – como par romântico de Leila Diniz – e “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” (Roberto Santos, 1971). Villar cita “Panorama Visto da Ponte”, de Arthur Miller, como a mais marcante interpretação de sua carreira no teatro. 

Nathalia Timberg, Elizabeth Henreid e Leonardo Villar em "Panorama Visto da Ponte", peça de Arthur Miller, dirigida por Alberto D'Aversa, 1958 (Foto: Acervo de Orias Elias/Astros em Revista)

Mas o que poucos sabem é que, antes de tudo isso, o ator trabalhou como costureiro para as mais renomadas casas de moda paulistanas, e, posteriormente, fundou seu próprio ateliê de alta-costura. Há poucos registros imagéticos dos trabalhos artísticos de Villar anteriores a sua estreia no teatro. Ao menos, poucos registros acessíveis ao grande público. O ator, em depoimento concedido à atriz Nydia Licia para sua biografia “Leonardo Villar – Garra e Paixão”, da Coleção Aplauso, é lacônico ao narrar os episódios de sua vida no período em que trabalhou ao lado de grandes nomes da alta-costura brasileira.

(Foto: Acervo de Orias Elias/Astros em Revista)

Leonildo Motta (seu nome de batismo) nasceu em Piracicaba, interior de São Paulo, em 25 de julho de 1923. Filho de imigrantes espanhóis da região de Málaga, província de Estepona, cresceu na roça. “Fui criado numa fazenda, naquela vida de lavrador pobre, bem pobre mesmo”, narra. “Quando era criança gostava de ir para o mato armar arapuca, pegar passarinho, nadar no rio – esse tipo de brincadeira de subir em árvore, de catar fruta...”

Leonardo Villar e o irmão mais novo  (Foto: Acervo pessoal de Leonardo Villar/Livro: Leonardo Villar: Garra e Paixão", 2005)

A pobreza levou-o a iniciar-se cedo no mercado de trabalho. Nesta época, desenvolveu suas habilidades com a agulha: “Com dez anos eu comecei a trabalhar. Na vilazinha, só tinha uma rua. Numa ponta um alfaiate e na outra um sapateiro. Então meu pai, que não queria que eu e meu irmão, os dois menores, fôssemos trabalhar na roça, decidiu: ‘Vocês vão – vai um no sapateiro e outro no alfaiate; se ficarem os dois juntos, brigam’ (nós dois brigávamos muito). Fomos. Ele decidiu: ‘Você fica aqui no alfaiate, e você fica ali no sapateiro’. E meu irmão foi sapateiro a vida inteira e eu fui alfaiate até a época em que vocês me conheceram...”

Leonardo com amigos da juventude, também alfaiates (Foto: Acervo pessoal de Leonardo Villar/Livro: "Leonardo Villar: Garra e Paixão", 2005)

Talentoso, não demorou a ser requisitado pelas melhores casas de moda da cidade de São Paulo: “Depois, com 12 anos, eu vim para São Paulo. A família toda se mudou para cá e fomos morar no Brás. Lá continuei como ajudante de alfaiate, pois a família toda precisava trabalhar. Aprendi bem a profissão, me tornei alfaiate e, quando já estava adulto, achei importante me especializar também em roupas de mulher. Então fui trabalhar na Madame Rosita, que era uma das melhores casas de moda da época. Trabalhei lá durante quatro ou cinco anos, até que Madame Rosita me despediu porque me surpreendeu estudando meus textos de teatro e deixando a alta-costura para o segundo plano. Ela agiu certo, fez muito bem em me demitir. Então fui trabalhar na Vogue, outra casa finíssima e de grande prestígio na cidade. Quando saí de lá para abrir o meu próprio ateliê, já tinha me especializado em roupa de mulher também, então sabia as duas coisas igualmente bem e era muito requisitado.”

Em 1942, aos 19 anos (Foto: Acervo pessoal de Leonardo Villar/Livro: "Leonardo Villar: Garra e Paixão", 2005)

Leonardo descobriu a Escola de Arte Dramática (EAD, fundada em 1948 pelo ator e dramaturgo Alfredo Mesquita) através de um anúncio no jornal O Estado de S. Paulo, e decidiu que deveria fazer o teste para estudar teatro. “Ela [Escola de Arte Dramática] ficava no prédio do TBC, instalada no segundo andar. Eu subi, era muito tímido, nem falava direito, falava errado como todo suburbano fala. Mal sabia ler e escrever; ler até que ia bem, mas não sabia escrever corretamente, era semi-analfabeto... Subi e perguntei: ‘É aqui que funciona uma escola?’ Acho que era a Ilka Bramini, a secretária que me atendeu. Ela disse: ‘É, sim, essas são as salas de aula’. E Cacilda Becker estava dando aula. Foi a primeira vez que eu vi a Cacilda, e perguntei pra ela: ‘Como é que a gente faz pra frequentar esta escola?’ Ela me explicou: ‘Você tem que fazer um teste; tem que ler uma cena, que eles vão te dar na hora; você fica um tempo lendo, depois apresenta para eles dando a sua interpretação. E você tem que trazer uma cena de uma peça, já pronta, que preparou em sua casa.’ Eu não conhecia peça alguma.”

Em 1948, no exame da EAD (Foto: Acervo pessoal de Leonardo Villar/Livro: "Leonardo Villar: Garra e Paixão", 2005

Após o bem-sucedido teste para a EAD, estudou teatro, e passou a trabalhar junto ao TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). Como exímio costureiro, utilizou seu talento na criação de figurinos para espetáculos: “(...) recebi um pequeno papel no espetáculo de terceiro aniversário do TBC, A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas, dirigidas por Luciano Salce no Teatro Municipal. Com Cacilda [Becker], Maurício Barroso e Paulo Autran nos papéis principais. Eu fazia o médico. Montagem deslumbrante. Como eu ainda tinha o ateliê de costura, fiz todo o guarda-roupa de Cacilda e de Cleyde Yaconis, aquelas saias de 20 ou 30 metros de tecidos, desenhadas pelo cenógrafo Aldo Calvo. Em seguida, fiz o vestido de noite de Elizabeth Henreid em Convite ao Baile, de Jean Anouilh. Só vendi meu ateliê quando fui contratado pelo TBC."

Vestido confeccionado por Leonardo Villar para Elizabeth Heinred na peça "Convite ao Baile", com Sérgio Cardoso (Foto: Acervo pessoal de Leonardo Villar/Livro: "Leonardo Villar: Garra e Paixão", 2005)

Hoje, aos 92 anos, Leonardo Villar passa o tempo desenvolvendo suas habilidades na tapeçaria: “Trabalhei muitos anos costurando. Então, se estou vendo televisão, fico fazendo tapeçaria. E não é em tela pintada, não, eu tenho gráfico, tem cruzinhas, tracinhos, cada um representa uma cor. Então eu vou contando e vou enchendo. Eu pego a tela limpa e vou enchendo-a. Faço tapetes de até 3 x 4m para a sala e outros menores, de 2 x 1,20 m, para as paredes. Os de parede são todos de desenhos meus, os de chão são reproduções. Vou fazendo devagar, às vezes demoro meses. Não tem pressa. É uma coisa que faço há anos, sem compromisso. Como tenho prática, faço automaticamente. É relaxante ver o desenho crescer, ficar bonito; é gostoso.”

Tapete confeccionado por Leonardo Villar (Foto: Acervo pessoal de Leonardo Villar/Livro: "Leonardo Villar: Garra e Paixão", 2005)

Tapete confeccionado por Leonardo Villar (Foto: Acervo pessoal de Leonardo Villar/Livro: "Leonardo Villar: Garra e Paixão", 2005)

Tapete confeccionado por Leonardo Villar (Foto: Acervo pessoal/Livro: "Leonardo Villar: Garra e Paixão", 2005)

Tapete confeccionado por Leonardo Villar (Foto: Acervo pessoal de Leonardo Villar/Livro: "Leonardo Villar: Garra e Paixão", 2005)

Homem tímido e de poucas palavras, Leonardo Villar assim resume os sucessos de sua vida: "Hoje em dia eu posso olhar para trás e concluir que sou um cara de sorte. Um cara privilegiado. Nasci na roça e acabei sendo um alfaiate das melhores casas de moda de São Paulo. Fiz a Escola de Arte Dramática sem ter condições de fazer, graças aos professores que reconheceram meu esforço e vislumbraram minhas possibilidades. Quis entrar no TBC e acabei ficando nove anos, em contato com os melhores diretores e os melhores atores do Brasil. Tivemos uma temporada no Rio, na Cia. Dramática Nacional, que foi maravilhosa. O primeiro filme que fiz ganhou todos os prêmios, a começar pelo Festival de Cannes. Trabalhei em todas as televisões e contracenei com todos os grandes atores. Tenho uma família que me ama. Tenho uma vida tranquila e a consciência em paz. Que mais pedir a Deus?"

Referências:

LICIA, Nydia. Leonardo Villar: Garra e Paixão. Coleção Aplauso Perfil. Imprensa Oficial – São Paulo, 2005.  

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

5 comentários:

  1. Admiro muito esse grande ator que é o Leonardo Vilar, acho ele, um dos melhores atores brasileiros, adorei saber um pouco mais sobre ele, espero que ele esteja feliz.

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    1. É impossível conhecer Leonardo Villar e não admirar seu talento. Que bom que gostou, Leuda! ♥

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  2. Grande ator Leonardo Vilar! O primeiro trabalho seu que conheci foi professor Luciano em o Primeiro Amor da rede Globo em substituição ao seu amigo e compadre Sergio Cardoso, outro grande ator falecido prematuramente com apenas 47 anos.Foi muito triste o desaparecimento do mesmo mas aprendi a te admirar e tomar conhecimento dos seus trabalhos como por exemplo o Pagador de Promessas, o único filme brasileiro a ser premiado no festival de Cannes.Esses dias mesmo assisti e realmente foi uma grande produção principalmente em se tratando da época sem as tecnoligias avançadas de hoje.
    Felicidades Leonardo Vila,se possivel gostaria de vê-lo encenando algo na tv ou participando de alfum programa de entrevistas. Você merece ser lembrado.

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  3. Conheci ele pessoalmente em 1977, em Copacabana.Pessoa muito educada! Que sempre esteja bem!

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