Helen Kane, a musa que inspirou Betty Boop

Por Rafaella Britto


Por muitos anos, especulou-se acerca de quem teria sido a musa inspiradora para a criação da famosa personagem de cartoon Betty Boop. Há quem diga que foi Clara Bow, ao interpretar a ousada e divertida Betty Lou na comédia romântica “It”, de 1927, que a consagrou como um símbolo sexual dos anos 1920. Entretanto, a semelhança entre os nomes Betty Lou e Betty Boop não foi mais do que coincidência. A musa que inspirou Betty Boop não é tão conhecida nos nossos dias: seu nome é Helen Kane, popular cantora, atriz e dançarina norte-americana que conquistou sucesso em algumas das primeiras comédias musicais produzidas em Hollywood, em fins dos anos 1920 e início de 1930.

Helen Kane no musical "Sweetie" (1929) - (Foto: Hulton Archive/Getty)

Carreira

Helen Clare Schroeder nasceu no bairro do Bronx, em Nova York, no dia 4 de agosto de 1904. De origem humilde, era filha do imigrante alemão Louis Schroeder e da imigrante irlandesa Ellen Dixon. Ainda criança, Helen demonstrava talento para o palco, atuando em peças do colégio onde estudava. Aos 15 anos, fez sua estreia profissional no teatro vaudeville, em turnê com a trupe de comediantes Marx Brothers.

(Foto: Hulton Archive/Getty)

Após a turnê, seguiram-se algumas apresentações solos no Teatro Paramount. O timbre anasalado da jovem cantora e seu estilo de garota sapeca, combinando fala e canto, atraíram a atenção de Hollywood. Desde 1924, Helen adotara o sobrenome de seu primeiro marido, o empresário Joseph Kane, e conservou-o durante toda sua carreira profissional. Fez sua estreia no cinema em 1929, na comédia “Nothing But the Truth”, o primeiro dos sete filmes em que atuou. Embora não fosse a grande estrela das produções, Helen gozava de enorme popularidade entre o público, e ganhava um salário de $ 8.000 dólares semanais. Entre seus sucessos no cinema, estão os musicais “Sweetie” (1929), com Nancy Carroll, e “Heads Up!” (1930), com Buddy Rogers.




A polêmica de Betty Boop

Helen lançou singles de sucesso, como “I Wanna Be Loved by You” (música que seria, anos mais tarde, reinterpretada por Marilyn Monroe na comédia “Quanto Mais Quente Melhor”). A marca registrada de suas interpretações estava em entremear as canções com “boop-oop-a-doop”: “Eu fiz isso durante um dos ensaios, como uma espécie de interlúdio”, disse a cantora. “É difícil explicar. Eu mesma ainda não entendi. É como vo-de-o-do, [Bing] Crosby com boo-boo-boo e [Jimmy] Durante com cha-cha-cha.” (1)


Helen Kane com Oliver Hardy e Stan Laurel em um show beneficente em Los Angeles, 1930 (Foto: Hulton Archive/Getty)

Em 1930, foi lançado o curta-metragem animado “Dizzy Dishes”, no qual fazia sua primeira aparição a personagem que, posteriormente, seria conhecida como Betty Boop. Criada pelo cartunista Grim Natwick, Betty foi inicialmente concebida como “um poodle francês antropoformizado” (2), de orelhas grandes e caídas, e nariz redondo. Somente mais tarde, após o sucesso, a personagem foi redesenhada como humana. “Eu tinha um disco de Helen Kane”, disse o criador Grim Natwick. “A inspiração para os cachos veio dela. Eu apenas desenhei um cachorrinho com orelhas grandes que depois se tornaram um par de brincos de argola. Acho que usei um poodle francês como base para a ideia inicial”. (3)


Primeira aparição de Betty Boop no curta-metragem "Dizzy Dashes", de 1930. Inicialmente, a personagem foi concebida como um poodle francês (Foto: Reprodução)

Betty fez aparições em outras animações em curta-metragem, e entrou para a história interpretando o single de Helen Kane “Boop-Oop-A-Doop”. Sua voz foi dublada pela cantora Mae Questel.



Em 1932, a revista Photoplay fez uma comparação entre Kane e a personagem (imagem abaixo): “Pessoal, conheçam Betty Boop (direita). Vocês verão muito sobre ela, porque ela é a nova personagem que está tentando concorrer com o Mickey Mouse. Ela lhes parece familiar? Agora vejam a pequena boop-dooper Helen Kane. Helen foi a inspiração do cartunista para Betty, e é a primeira vez que uma pessoa real inspira um personagem de quadrinhos.”


Comparação entre Helen Kane e Betty Boop feita pela revista Photoplay em 1932 (Foto: Reprodução)

Helen Kane negou a semelhança entre ela e a personagem. Em maio, um mês após a comparação da Photoplay, a atriz processou o estúdio Fleischer (responsável pela criação de Betty Boop) por utilizar sua imagem sem autorização. O caso permaneceu nos tribunais por mais de dois anos, até a decisão da justiça contra Kane: o juiz alegou que Kane não fora inventora ou precursora de coisa alguma, e sim que fora ela quem havia se apropriado do “boop-oop-a-doop” criado anos antes pela cantora afro-americana Baby Esther. Ainda hoje, acredita-se Baby Esther tenha sido a verdadeira inspiração para Betty Boop e que os estúdios não quiseram admitir que tivessem se inspirado em uma cantora negra.


(Foto: Hulton Archive/Getty)

Últimos anos

Helen Kane foi casada por três vezes: a primeira em 1924 com o empresário Joseph Kane; a segunda em 1933 com o ator Max Hoffman Jr.; e a terceira em 1939 com o também ator Dan Healy. Sua popularidade decaiu e, ao lado de Healy, abriu um restaurante em Nova York, ‘Healy’s Grill’. Fez raras aparições na televisão, até sua morte, em 26 de setembro de 1966.


Helen Kane com seu segundo marido, o ator Max Hoffman Jr., em 1933 (Foto: Hulton Archive/Getty)

Betty Boop foi redescoberta nos anos 1980. A figura da dançarina de cabaré, ingênua e sensual, estampa os mais diversos produtos comerciais, como bolsas, mochilas, cadernos, chaveiros, brincos, roupas, calçados e esmaltes.

(Foto: Hulton Archive/Getty)

Confira abaixo uma das últimas aparições de Helen Kane, em 1958, no programa de TV americano “This Is Your Life”:




Referências:

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

2 comentários:

  1. Era uma das minhas dúvidas porque já lido muita coisa a respeito.Achei ela bem bonita!
    Tenho que confessar que antigamente enchia o saco da minha mãe pra comprar os cadernos da Batty Boop HAHAHAH, mas nunca comprei (eram bem caros).E aquelas bolsas de marca? Eu era louca pela aquela branca que tinha várias Betty's coloridas junto com chaveirinhos em formato de coração.Só não compro agora porque saiu de moda :c

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    1. Eu sempre amei Betty Boop, Gabi, mas de fato, o preço dos produtos dificultava bastante a compra. Tive uma dessas bolsas que você falou, mas faz muito tempo, só sobrou o chaveirinho. =P

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