A história da moda hip hop

Por Rafaella Britto



A moda e a música estão intrinsecamente relacionadas: a partir do que vestimos, é possível deduzir, também, o que ouvimos. Moda é, sobretudo, identidade, e ao passo em que transcende a expressão individual, torna-se o retrato da sociedade no tempo.
A moda adquire valor significativo entre a juventude dos grandes centros urbanos, que, na busca por seu lugar no mundo, cria seus próprios símbolos estéticos e de comportamento. Assim surgiu o hip-hop.


O trio de rap Run DMC, nos anos 80 (Foto: Reprodução)

O hip-hop pertence à história da luta afro-americana nos Estados Unidos. Descendentes da diáspora africana, os negros na América batalharam – e batalham – pelos seus direitos civis e pelo fim da segregação racial. Entre 1910 e 1970, 6 milhões de afro-americanos deixaram as regiões rurais do sul dos EUA e migraram para as grandes cidades, no intuito de conquistar melhores condições de vida. Este fenômeno é conhecido como a Grande Migração.
Os negros contribuíram sobremaneira para a identidade cultural dos EUA: deles vem o jazz, cujo ritmo frenético embalou a geração da primeira metade do século 20, e o blues, que originou o rock ‘n’ roll. A música foi utilizada como instrumento político da negritude: em 1939, Billie Holiday interpreta “Strange Fruit”, a primeira canção a denunciar abertamente o racismo.
Porém somente a partir de 1950 florescem os movimentos pelos direitos sociais dos afro-americanos. A luta seria intensificada na década seguinte, tendo como símbolo máximo o histórico discurso “I Have a Dream”, proferido por Martin Luther King Jr. durante a Marcha sobre Washington, em 1963.
A música negra americana atingiu seu auge nos anos 1970. Nesta época, três estilos eram particularmente notórios: a disco music, o funk e o hip-hop. (1)

Festa no Bronx, anos 80 (Foto: Reprodução)

O hip-hop nasceu no Bronx, bairro periférico de Nova York cuja maioria da população era constituída de afrodescendentes e latinos. Vivendo à margem da sociedade e estigmatizados pelo racismo e a pobreza, a juventude dos bairros negros de Nova York organizava-se em gangues que disputavam de maneira violenta o domínio do território.


Bronx, anos 80 (Foto: Reprodução/Vintage Everyday)

Imersos num ambiente de pouca infraestrutura e baixo acesso a educação, os jovens encontravam na rua seu espaço de lazer, e ali desenvolviam suas próprias manifestações artísticas. Realizavam-se festas de rua com equipamentos de som possantes, onde se tocava um novo tipo de música, surgido dentro das periferias.


Bronx, anos 80 (Foto: Reprodução)

A palavra ‘hip’ é utilizada pelos afro-americanos para designar algo que está ‘no momento’, que é ‘atual’, ‘moderno’. Já a palavra ‘hop’ foi criada pelo DJ Grandmaster Flash, que, para provocar um amigo que havia entrado para o exército, imitava a cadência rítmica dos passos dos soldados – ‘hip/hop/hip/hop’. O gênero tornou-se a principal expressão da juventude negra do Bronx e, a partir de 1973, as gangues passaram a disputar campeonatos de dança.


Jovens disputam campeonato de dança no Bronx, nos anos 80 (Foto: Reprodução/Vintage Everyday)

Inicialmente marginalizado, o hip-hop desenvolveu as primeiras experimentações da música eletrônica que, mais tarde, influenciaria o new wave e outros subgêneros da música pop. A cantora Debbie Harry, vocalista da banda Blondie, encantou-se pelo rap e incluiu elementos da nova música negra em seu hit “Rapture”, de 1980. “Aquilo era muito moderno”, disse Debbie em entrevista ao documentário “History of Hip Hop”. “Eu era uma rapper sem experiência e estava empolgada por fazer parte da tradição do novo. Era muito underground, era dançante... Naquela época, os eventos de rap eram muito proibidos porque a maioria dos frequentadores era negra”.


O hip-hop trouxe consigo a arte urbana, a música eletrônica, e uma nova estética que alterou os rumos da indústria da moda. Para a pesquisadora americana Elena Romero, autora do livro “Free Stylin’: How Hip Hop Changed the Fashion Industry” (sem tradução no Brasil), “o hip hop mudou a indústria da moda porque levou a sensibilidade desse estilo vindo das ruas da cidade para todos. Forçou a indústria da moda a reconhecer o poder dos afro-americanos e latinos como consumidores. Até a comercialização do hip hop, as tendências de moda giravam em torno da população branca.” (2)


Garotos exibem suas jaquetas customizadas com grafite - Bronx, anos 80 (Foto: Reprodução)

Confira o clipe de "Go On Girl", hit do rap dos anos 80, interpretado pela cantora Roxanne Shante:



O visual hip-hop é composto por peças de populares marcas do sportswear, como Adidas, Kangol, Pro-Keds e Le Coq Sportif. Distingue-se pelas roupas largas e a utilização de acessórios de ouro, especialmente, anéis e colares.


Beastie Boys e Run DMC (Foto: Reprodução)

A partir de 1980, conforme o hip-hop popularizava-se e adquiria maior consciência social, viu-se a necessidade de retornar às raízes negras. Assim, a moda hip-hop foi, também, influenciada pelo Nacionalismo Negro, que inspirava-se nos visuais latinos e africanos, marcados, sobretudo, pelas cores vivas.


O visual do trio Salt N Pepa era marcado por influências africanas e latinas (Foto: Reprodução)

O primeiro expoente da moda hip-hop foi o estilista Karl Kani: nascido no Brooklyn, bairro negro de Nova York, filho de latinos, Kani possuía duas paixões: a moda e o hip-hop. Ainda durante a adolescência, tendo crescido na periferia e sem jamais ter tido instrução formal em design ou alfaiataria, Kani criou o modelo de calças largas popular entre os rappers. Sua marca é considerada pioneira no segmento hip-hop e, em 1996, o estilista foi eleito pela revista People como um dos 100 afro-americanos mais ricos. (3)


Puff Daddy e Tupac para Karl Kani (Foto: Reprodução)

A partir de 1990, o hip-hop tornou-se mainstream e foi incorporado à indústria fonográfica. O estilo perdeu parte de sua conotação social dos primeiros anos, e hoje, rappers como Kanye West são ícones fashion e ocupam as filas A dos principais desfiles da alta moda. “Como os artistas e os magnatas do hip hop descobriram o poder do status de celebridade, muitos decidiram produzir suas próprias linhas de roupas”, disse Elena Romero. “Conforme o tempo passou, parecia que os consumidores não precisavam nem mesmo gostar do artista ou conhecer sua música para usar as roupas da grife dele. O sucesso dessas marcas tem a ver com o ‘lifestyle’ que elas transmitiram e perpetuaram.” (4)

Confira, na galeria abaixo, uma linha do tempo da moda hip-hop (por década):




Referências:

(1) ROMERO, Elena. Free Stylin’: How Hip Hop Changed the Fashion Industry. Library of Congress Cataloging-in-Publication Data – Santa Barbara, California, 2012 (disponível em https://books.google.com.br/books?id=9TBxh0BCuRkC&pg=PA1&hl=pt-BR&source=gbs_toc_r&cad=4#v=onepage&q&f=false);
(3) Karl Kani no Wikipedia (em inglês).

Foto de abertura: Reprodução

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

3 comentários:

  1. Muito legal saber a história por trás do som, não são todos não mas goto de alguns cantores do gênero.

    Beijos http://www.ritinhaangel.com.br/

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    1. Fico feliz que tenha gostado, querida!

      Beijos!

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