José de Alencar e sua “Psicologia da Mulher Elegante”

Por Rafaella Britto

"A reclining lady with a fan" - Eleuterio Pagliani (1826-1903) - (Imagem: Reprodução)

Semana passada, na matéria especial “A Moda como objeto de estudo na obra de José de Alencar”, apresentamos o texto de folhetim em que o autor de “Iracema” disserta acerca do impacto da moda e sua influência no destino da humanidade.
Hoje acompanharemos o texto “Psicologia da Mulher Elegante”, publicado em 6 de março de 1856. Nele, o então cronista e editor-chefe do jornal Diário do Rio de Janeiro, ensaia sobre a alma feminina e os mistérios da vida elegante no Brasil Imperial, através do uso do leque.

Neste texto foi mantida a grafia original.


I - Revista: 
conversa com as minhas leitoras

 Estou hoje com bem pouca disposição para a palestra; por isso, minha bela leitora, em vez de conversarmos, vou ler-vos alguma cousa bonita e agradável.
 O que há de ser?
 Uma página de Stendhal, um romance de Mery, uma poesia de Lamartine, ou algum trecho de Alfonso Karr?
 Nada disto: conheceis todas essas flores da literatura francesa; e assim pouco interesse vos causaria a minha leitura.
 Tenho alguma cousa de mais novo e mais original, e que estou certo haveis de apreciar.
 É o capítulo de um livro anônimo, e ainda manuscrito, que me foi dado por uma espécie de Manfredo de Byron, como sabeis, embuçava-se no seu manto, subia aos píncaros escarpados dos rochedos, e aí, no meio da solidão, entre os abismos, maldizia a humanidade.
 O nosso Manfredo de hoje veste o seu talmá, acende o seu havana, e vai para o Club, ou para o café, jogar sua partida de bilhar, e maldizer a sociedade, à qual ele dá a honra de fazer parte.
 Foi um dos indivíduos dessa família que me fez presente do livro de que vos falei: o autor conservou o incógnito, e não quis fazer, como hoje se costuma, um brasão de títulos da sua primeira página.
 Intitulou a obra Psicologia da mulher elegante, e dividiu-a em diversos capítulos, todos interessantes, senão pela forma e pelo estilo, ao menos pela originalidade.
 O capítulo que vou ler tem por título O leque: é um estudo psicológico que o autor faz sobre o este objeto de luxo, que serve de cetro às rainhas da moda.
 Há, como estes, muitos outros capítulos a respeito do bouquet, do mantelete, do lenço, das fitas, das botinas, etc.
 Mas prefiro o leque porque, estando no verão, tem a sua atualidade.
 Portanto, se estais disposta a ouvir, abro o meu livro e começo a leitura do meu capítulo.
 Aí o tendes:

Psicologia da mulher elegante

Capítulo único
O leque

I

 As moças têm um companheiro fiel, confidente dos seus menores segredos.
 É o leque.
 À primeira vista parece um simples objeto de luxo; mas se ele pudesse contar o que viu e ouviu!...
 Quando o rubor vem colorir uma bela face, aí está o leque para disfarçar e encobrir aos olhos profanos esse misteriozinho de pudor.
 Um leque serve também de pretexto para baixar os olhos, e ocultar a vista que anda passeando pelo salão.
 Se uma amiga quer dizer um segredo ao ouvido de outra, estende o seu leque aberto, e por sobre a madrepérola dourada deslizam essas palavras que, por saírem de lábios mimosos, não deixam de ser bem venenosas.
 São como os espinhos que se escondem entre as folhas das rosas, com o fel que destila o cálice de uma flor alva e pura.
 Por mim, apenas descubro um leque naquela posição temível de pára-raio, vou quebrando à direita, e colocando-me em respeitosa  distância: umas das cousas que mais temo neste mundo é ver-me reduzido a passar da boca de uma moça ao ouvido de outra por entre as aspas de um leque.
 Preferia passar por baixo das forças-caudinas, ou ser passado a fio de espada; porque duvido que haja ferro que doa mais do que aquelas tenazes de madrepérola dourada, que são vibradas por uma mãozinha que calça luva de Jovin letra A.
 Outra posição respeitável do leque é quando ele move-se com extrema rapidez, ou abre-se e fecha-se com um certo trilho sonoro, porém de mau agouro.
 Se reparardes bem, vereis que a mãozinha que lhe imprime este movimento está crispada por uma convulsão nervosa; é um sinal de mau humor, e bom será que não vos aproximeis neste momento.
 Dizem alguns fisiologistas experientes que nesta ocasião a rapidez do movimento do leque é um termômetro exato da rapidez da circulação do sangue.
 Não sou fisiologista; mas basta-me ver de longe um leque fazendo ziguezague, para compreender o que se passa na alma de uma moça, e para sentir-me tomado de dó e de compaixão pelo sujeito ameaçado por esta inocente arma de guerra feminina.



II

 O leque tem sua linguagem, como as flores linguagem telegráfica, (sic) um pouco simbólica, que os profanos nunca poderão entender; só os iniciados nos mistérios da vida elegante é que sabem interpretar os seus menores movimentos.

 Não há fio elétrico, não há sinais de repercussão que transmitam o pensamento com mais rapidez e mais clareza, do que um leque na mão de uma moça: é de tal forma, que alguns homens peritos governam-se por ele no meio do salão, como o marinheiro no oceano por meio de uma boa agulha de marear.

 Uma mãozinha que se estende indolentemente, e deixa cair a ponta do leque sobre a palhinha de uma cadeira, diz ao escravo submisso que "venha sentar-se ali".

 Quando o leque descreve um semicírculo, ou faz um movimento de retração, o sujeito de longe traduz imediatamente o gesto ao pé da letra: - "Passe para o outro lado" - ou - "aproxime-se".

 Se o escravo é um pouco rebelde, e não obedece sem hesitar, vereis o leque dar duas pancadinhas, uma após outra, sobre o espaldar da cadeira: isto em linguagem cabalística vale o mesmo que um ukase do sultão, ou uma sentença sem apelação nem agravo. Em linguagem profana significa simplesmente: Quero, quero e já.

 Entretanto, o leque tem um momento delicioso; é quando se agita indolentemente sobre o seio, com movimento suave das asas do cisne, que se revê na flor do lago. 

 Então a sua linda está em uma de suas horas de embevecimento; tudo nela respira a felicidade e o prazer.

 Os olhos meio cerrados têm um requebro lânguido; um sopro ligeiro agita as rendas do seu vestido ou as fitas dos seus cabelos; e as sombras escassas que passam e trespassam sobre o colo acetinado, dão-lhe umas ondulações voluptuosas, capazes de enlouquecer um pobre homem que tem olhos para ver todas as cousas.

 Então que segredos não ouve ele no palpitar desse seio mimoso, no bafejo dessa boca delicada que o perfuma com seu hálito de rosas?

 Se o leque fosse uma cousa animada, eu diria que é o momento em que ele sorri; porque na sua linguagem misteriosa diz àquele por quem se agita: "Eu te olho, eu te amo, e sou feliz".

 Tenho visto muitos homens brincarem com o leque que alguma senhora deixa por acaso sobre a cadeira, como se fosse um objeto qualquer de luxo.

 Eu não sou assim: para mim o leque é um livro de páginas douradas, um álbum de seda e de penas, em que a mulher guarda todos os seus segredos.

 Por isso, quando alguma senhora me dá o seu leque a guardar, recebo-o com o mesmo respeito com que receberia o autógrafo de um romance de Alexandre Dumas, ou de uma poesia de Victor Hugo.


III

 Para concluir este estudo fisiológico do leque, acrescentarei algumas observações sobre a sua história.

 O leque é para a mulher o que a bengala é para o homem; na sua origem ambos estes objetos foram uma arma de defesa, mas a civilização, de transformação em transformação, reduziu-os a um traste de luxo, que às vezes ainda no fundo revelam o que foram.

 A bengala na sua primitiva forma não era mais do que uma clava, um bastão ou um cajado; depois transformou-se em lança, adaga, espada ou florete; e finalmente no século XIX chegou a seu estado de perfeição, que é a bengalinha de junco ou a chibatinha de barbatana.

 Hércules, Abraão e Diógenes trouxeram a clava, o cajado e o bastão; César, Carlos Magno, Henrique IV e Turenne usaram a lança, da adaga, da espada; Napoleão tinha o seu sabre; Murat o seu chicotinho; Nicolau da Rússia andava de bengala: está pois bem próxima a época em que o cetro dos reis será uma chibatinha de unicórnio, com castão de coralina.

 O leque passou com poucas diferenças pelas mesmas transformações que a bengala.

 Nos tempos heróicos teve a forma de um punhal ou estilete; tornou-se depois um fuso, e afinal, com a descoberta do caminho da Índia, metamorfoseou-se no que é atualmente.

 Sarah, Norma, Abigail e Medéia traziam à cinta o seu punhal; a rainha D. Sancha e as castelãs da Idade Média manejavam a roca e o fuso: a moça elegante do nosso tempo abana-se indolentemente com o seu leque dourado.

 Passo por alto algumas outras transformações, verdadeiras aberrações, como por exemplo: o estilete que há bem pouco usavam as andaluzas, e o fato da padeira de Aljubarrota, cujo leque foi uma pá de forno.


IV

 Agora podem os meus leitores conhecer a razão por que ainda hoje o leque conserva alguma cousa da sua primitiva origem: apesar de toda a indolência e o capricho que lhe deu o gênio voluptuoso da Índia, é sempre a mesma arma terrível da mulher.

 Sob as duas penas de Marabout, entre as aspas delicadas, a vista não vê, mas o coração do homem ainda sente o estilete de Norma, que a vingança muitas vezes estorce, como um víbora no seio das flores.

  Judith com o seu punhal cortou a cabeça de Holofernes e exultou pelo seu ato de coragem e de bravura; a Judith de luvas e mantelete dos nossos tempos, com o seu leque, esmaga, sorrindo, o coração dos Holofernes de casaca, e saboreia lentamente o prazer da tortura e do marca, e saboreia lentamente o prazer da tortura e do martírio que impõe à sua vítima; uma é pois digna de outra.

 Ainda um paralelo:

 Lucrécia para defender a sua honra serviu-se do seu leque, isto é, do seu punhal, e a ele deveu conservar-se pura e casta; a Lucrécia moderna, para defender o seu pudor, serve-se do seu punhal, isto é, do seu leque, e a ele confia a guarda do seu pejo.

 A primeira, estando só e não podendo defender-se, apunhalou-se e morreu; a segunda, estando no meio do salão, e levando o vestido decotado, oculta o seio com o leque, e sorri.

 Aqui infelizmente já a Lucrécia moderna não é nem a sombra da esposa romana; o que é que degenerou, foi a honra ou a mulher?

 Deve ter sido a honra, porque a mulher é a mesma em todos os tempos: criai um paraíso, deitai nele um Adão, e achareis mil Evas ao alcance do braço.

 Agora, meus leitores, inclinai a cabeça, chegai o ouvido, que vos quero dizer uma cousa em muito segredo.

 É um conselho.

 Se desejais viver tranquilos e felizes, quando virdes um leque fugi dele como de uma pistola carregada.

 Talvez penseis que me contradigo; mas refleti que há pouco falava para o público, e especialmente para as senhoras; e agora falo-vos ao ouvido, e em confidência. Virgílio, descrevendo a verdadeira felicidade e a doce tranqüilidade da vida campestre, disse: - Felix, qui procul neogotiis, etc.

 Se ele viesse hoje, e vos falasse em meu lugar; se quisesse convidar-vos ao sossego e aos calmos prazeres do lar doméstico, em vez daquelas palavras, escreveria pouco mais ou menos estas: - Felix, quis procul lequis, etc.

 Antigamente os cavalheiros ilustres, depois de uma vida de feitos brilhantes, guardavam a sua espada, como uma relíquia sagrada, que entregavam ao seu primogênito no dia em que ele partia para a primeira campanha.

 Talvez as mulheres elegantes façam o mesmo, e dêem as filhas, no dia da sua primeira entrada nos salões, o leque, troféu glorioso de suas conquistas.

 Fui estudante, estudante vadio; entretanto nunca a fércula do meu mestre del latim me meteu tanto medo como esse brinquedo das mulheres à moda.

 Se eu governasse algum país, para conservar a paz do meu povo não consentiria no fabrico de leques; classificaria isto entre as indústrias proibidas, como a pólvora e os foguetes a congreve.

 Mas não sou governo, e por isso a única esperança que me resta é que o Sr. Sampaio Vianna fará apreender como contrabando todos os leques que entrarem na alfândega, como já fez com pentes de tartaruga.

 E assim fico um pouco tranqüilo, confiando na sabedoria do nosso inspetor, a quem está reservada a glória de salvar o país, apreendendo os leques e os pentes.

 Aqui termina o capítulo, minhas leitoras, e aqui eu termino igualmente.

 O livro como já vos disse, é anônimo; porém, se vos interessais muito em conhecer o autor, vou ensinar-vos a maneira de o conseguir.

 Deitai a costura sobre a banquinha, chegai depressa à janela, olhai para a rua, e o primeiro homem de bom senso que passar é o indivíduo que desejais conhecer.

 Podeis escrever-lhe o nome no fim do capítulo, que eu servirei de testemunha, e assinarei depois dele.


 6/mar./1856


Fonte:
Folha de S. Paulo - Coleção Crônicas Escolhidas - José de Alencar; Editora Ática S.A - São Paulo - 1995.

Leia também:

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

2 comentários:

  1. Amei o texto, e olha que não sou tão fã do Alencar (por alguns motivos de posicionamento político/social que ele tinha). No meu antigo blog eu cheguei uma vez a falar sobre a história dos leques. É legal ver como eles evoluíram e se tornaram artigos de luxo. O mais interessante do texto é como o José com olho de escritor conseguiu observar várias coisas por trás de um ~aparentemenete~ simples objeto.

    O post ficou ótimo. Sempre aprendo mais aqui.

    Beijos

    Gabi

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  2. O mais interessante no texto é a maneira como o José de Alencar conseguiu ver outros detalhes por trás de um obejto aparentemente simples. No meu antigo blog eu havia feito um post especial sobre a história dos leques, foi legal ver a evolução deles e como se tornaram obejtos de luxo.

    Sempre aprendo mais aqui no seu blog :D amo isso.

    Beijos- Gabi

    http://www.poesiaemtranse.com

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