A moda em Bollywood através das décadas

Por Rafaella Britto


Ao longo da história, Bollywood provou ser a grande paixão da Índia. Não à toa, a indústria do cinema indiano é a maior do mundo. Falar em Bollywood é falar em arte, cultura, tradição, e, também, em moda: desde sua consolidação, na década de 1950, Bollywood influencia amplamente o modo de vestir de seus espectadores. A cada dia, o mundo cede aos encantos das produções cinematográficas da Índia, suas canções e seus exóticos banquetes visuais. Confira algumas das principais tendências da moda em Bollywood, através das décadas.

1950: A ERA DE OURO

O nome Bollywood designa a indústria de cinema em língua hindi. É a junção das palavras Bombaim (antigo nome de Mumbai, cidade onde se localiza o centro desta indústria) e Hollywood.
Durante o domínio do Império Britânico, o cinema surge como instrumento político de luta pela independência da Índia. Após conquistada a independência, em 1947, o cinema indiano consolida-se como indústria. Na década de 1950, Bollywood vive sua Era de Ouro. 
Embora os britânicos já tivessem deixado o país, a influência ocidental permaneceu nas vestimentas, como atestam os primeiros filmes de sucesso em Bollywood: as atrizes vestem as amplas saias características da moda cinquentista. Nos cabelos, são sucessos as ondas à la Rita Hayworth, além das fortes maquiagens inspiradas nas divas norte-americanas.

As atrizes Madhubala e Waheed Rehman: a influência ocidental na moda indiana (Fotomontagem/Reprodução)

Entretanto, apesar dos elementos ocidentais, predominava, nesta época, uma forte onda de patriotismo, como visto nos figurinos das famosas atrizes Nargis Dutt, Madhubala e Vyjiayanthimala: utilizava-se uma blusa de manga curta (algumas vezes, deixando a barriga à mostra), à moda européia, e, por cima, o sári tradicional do vestuário feminino indiano.

Madhubala, Nargis Dutt e Vyjiayanthimala: misturando tradição e modernidade, as atrizes vestiam blusas e sáris (Fotomontagem/Reprodução)

Além de Nargis, Madhubala e Vyjiayanthimala, consideradas as maiores estrelas femininas dos anos 1950, a moda na Era de Ouro de Bollywood teve dois principais representantes masculinos: os atores Dev Anand e Raj Kapoor. Anand, o primeiro herói romântico do cinema indiano, ditou moda entre os homens com seus lenços, chapéus, jaquetas e topete rockabilly. 

Dev Anand lançou moda com seus lenços, chapéus, jaquetas e topete rockabilly (Fotomontagem/Reprodução)

Raj Kapoor marcou época com seu visual inspirado no Vagabundo de Charlie Chaplin, no filme “Awaara” (literalmente, “Vagabundo”), de 1952: o traje, composto por chapéu, paletó, sapatos rotos e calças à altura das canelas, é imitado ainda hoje. Ator e cineasta, Kapoor é venerado como o homem que introduziu o cinema indiano ao mundo, sendo referido como “o showman” ou, até mesmo, “o Clark Gable da Índia”: “Awaara”, dirigido e estrelado por Kapoor, foi o primeiro filme indiano a concorrer a Palma de Ouro no Festival de Cannes e tornar-se hit na Europa.

O visual "Awaara" de Raj Kapoor inspirado no Vagabundo de Chaplin (Fotomontagem/Reprodução)

Os designs de muitos dos principais sucessos de Bollywood são de autoria da figurinista Bhanu Athaiya, vencedora do Oscar em 1983: nascida em abril de 1929, Athaiya iniciou sua carreira como ilustradora de moda para famosas revistas femininas de Bombaim. Estreou como figurinista de cinema em 1956, no drama policial C.I.D., estrelado por Dev Anand. Athaiya vestiu os mais aclamados astros da Índia, e trabalhou em mais de 100 filmes.

Bastidores do filme "Amrapali", 1966: Athaiya retoca o figurino e maquiagem da atriz Vyjiayanthimala (Foto: Reprodução)

Bhanu Athaiya foi vencedora do Oscar de Melhor Figurino em 1983 pelo filme “Gandhi” (prêmio compartilhado com o figurinista inglês John Mollo). Por “Gandhi”, foi, também, indicada ao BAFTA. Venceu outros importantes prêmios indianos, como o National Film Award pelos filmes “Lekin...” (1991) e “Lagaan” (2002), além de honrarias pelo conjunto da obra. 

Bhanu Athaiya, Oscar de Melhor Figurino em 1983 por "Gandhi" (Foto: Reprodução)

1960: A NOVA SENSUALIDADE

O advento do cinema a cores possibilitou aos figurinistas abusarem dos brilhos e tonalidades em suas produções. Bhanu Athaiya reinventa o traje tradicional feminino: o sári laranja desfilado pela atriz Mumtaz no filme “Brahmachari” tornou-se o grande clássico da moda em Bollywood. Considerado ousado para sua época, o sári “Mumtaz” – como foi apelidado – foi amplamente copiado pelas mulheres indianas, e erigido como o novo padrão da sensualidade.

Criação de Bhanu Athaiya para Mumtaz no filme "Brahmchari": o icônico sári laranja foi apelido de sári "Mumtaz" (Foto: Reprodução)

O destaque da década são os volumosos penteados beehive, característicos da moda ocidental. Sharmila Tagore torna-se a primeira atriz indiana a posar de biquíni para uma capa de revista.

Sharmila Tagore, a primeira atriz indiana a posar de biquíni para uma capa de revista (Fotomontagem/Reprodução)

Para compor o guarda-roupa de Rita, personagem da atriz Nanda em “Jab Jab Phool Khile” (1965), os figurinistas Narenda Kumar e Sheikh voltam-se para o estilo Jackeline Kennedy, composto por vestidos tubinhos sem mangas.

O estilo Jackie Kennedy de Nanda em "Jab Jab Phool Kille", 1965 (Fotomontagem/Reprodução)

Com visual inspirado em Audrey Hepburn, Sadhana, estrela dos filmes “Love in Simla” (1960) e “Mere Mehboob” (1963), popularizou o corte de cabelo marcado pela franja curta e reta, apelidado de corte “Sadhana”. 

O visual da atriz Sadhana foi inspirado em Audrey Hepburn (Fotomontagem/Reprodução)

Sadhana causou sensação no filme “Waqt” (1965) ao inaugurar um novo modelo de kurta (no traje tradicional indiano, uma espécie de bata que é vestida com calças), acinturado, sem mangas, e com bainha franjada.

Sadhana popularizou um novo modelo de kurta, acinturado, sem mangas e com bainha franjada (Foto: Reprodução)

A atriz Madhubala vivia altos e baixos em sua carreira, e consagrou-se definitivamente como a grande estrela indiana em 1965, ao protagonizar o épico “Mughal-e-Azam”, filme cuja exuberante produção é considerada uma das mais belas da história de Bollywood. Os figurinos de Madhubala são de autoria da Makhanlal & Co., e os bordados zardozi (tipo de bordado característico de países do Oriente Médio) foram feitos por alfaiates de Déli. Para a confecção das joias, foram recrutados designers e joalheiros de diversas outras cidades indianas. O filme, originalmente lançado em preto-e-branco, foi colorizado em 2004, e relançado com estrondoso sucesso.


Entre o público masculino, o ícone foi Rajesh Khanna: dono de um charme e estilo únicos, Khanna popularizou as kurtas de comprimento médio e colarinho alto, que passaram a ser chamadas de “guru kurtas”. O modelo ganhou este nome porque o galã era considerado um mestre na arte da sedução, sendo apelidado pelos homens de “guru”.


O galã Rajesh Khanna lançou a moda das chamadas "guru kurtas" (Fotomontagem/Reprodução)

1970: A REVOLUÇÃO SEXUAL

A Índia foi a principal inspiração para a moda hippie surgida nos Estados Unidos. Em 1971, a modelo Zeenat Aman estreia como atriz no filme “Hare Rame Hare Krishna”. A obra buscou retratar a decadência do movimento hippie e os perigos da ocidentalização da cultura indiana. Zeenat interpreta a canção “Dam Maro Dum”, que se tornou um grande hit psicodélico em Bollywood. A atriz desfila batas coloridas, brincos de argola, colares de flores e enormes óculos. 


O estilo hippie de Zeenat Aman em "Hare Rame Hare Krishna", 1971 (Fotomontagem/Reprodução)

Os cineastas bollywoodianos começam a desafiar o código de censura instaurado na Índia em 1947, que proibia a exibição de filmes contendo cenas de sexo, nudez, ou mesmo beijos entre casais. Raj Kapoor é o precursor desta revolução, ao dirigir a jovem estreante Dimple Kapadia no romance adolescente “Bobby”, de 1973: aos 17 anos, Kapadia torna-se o símbolo da liberação sexual na Índia, ao aparecer nas telonas vestindo o primeiro biquíni do cinema indiano. No mesmo filme, Kapadia ousa com uma provocante minissaia e top branco de amarração frontal estampado com bolinhas pretas.


O ousado figurino de Dimple Kapadia em "Bobby" (1973) tornou a atriz de 17 anos o símbolo da revolução sexual na Índia (Fotomontagem/Reprodução)

1980: DANCE MUSIC E NEON

A era mais colorida de Bollywood tem seu símbolo máximo no figurino de luzes utilizado por Amitabh Bachchan no número musical “Sara Zamana Haseeno Ka Deewana”, no filme “Yaarana” (1981). 


Amitabh Bachchan com figurino de luzes em "Yaarana", 1981 (Foto: Reprodução)

Era impensável que o sári - outrora considerado o estereótipo da mulher recatada - pudesse transformar uma atriz em sex symbol. Mas Sridevi, no filme “Mr. India” (1986), atribuiu um novo significado ao tradicional traje feminino: a atriz tornou-se a mulher mais desejada de sua época, interpretando a canção “I Love You” num sensualíssimo sári de chiffon azul.


Em “Mr. India”, Sridevi exibe outros figurinos igualmente icônicos, marcados por brilhos e cores vivas.


Figurinos de Sridevi em "Mr. India", 1987 (Fotomontagem/Reprodução)

A musa Rekha personifica heroínas glamorosas. Em 1988, a atriz é aclamada por sua interpretação de Aarti, uma viúva sofredora que se transforma em supermodelo, no filme “Khoon Bhari Maang”: Aarti ditou moda com seu exótico guarda-roupa, criação dos figurinistas Abu Jani, Sandeep Khosla e Leena Daru.


O glamour de Rekha em "Khoon Bhari Maang", 1988 (Fotomontagem/Reprodução)

Os designers, buscando a modernização do vestuário tradicional, reinventam o salwar kameez (traje composto por uma túnica - kameez - e peça de baixo - salwar), que passa a ter ombreiras. 


Salwar kameez com ombreiras marca o visual de Rekha em "Khoon Bhari Maang", 1988 (Fotomontagem/Reprodução)

1990: O PASSADO PRESENTE

Logomania, sobreposições, camisas de amarração frontal, shorts e calças de cintura alta, minissaias, meias compridas, moletons Gap e camisetas Polo: em 1990, Bollywood surge "americanizada" e projeta-se no mercado cinematográfico mundial.


Shahrukh Khan, Karishma Kapoor e Kajol: nos anos 90, a moda em Bollywood surge "americanizada" (Fotomontagem/Reprodução)

Os designers voltam-se para as tendências do passado: o sári azul acetinado com aplicações de pedraria desfilado pela atriz Madhuri Dixit no filme “Hum Aapke Hain Koun” (1994), criação da figurinista Shabina Khan, torna-se o modelo mais desejado pelas mulheres.


O icônico sári de Shabina Khan para a atriz Madhuri Dixit no filme "Hum Aapke Hain Koun", 1994 (Fotomontagem/Reprodução)

ANOS 2000 E ATUALIDADES: A ERA DA GLOBALIZAÇÃO

Os anos 2000 em Bollywood são marcados pelo minimalismo e completa ocidentalização. A nova geração inspira-se no glamour de atrizes como Kereena Kapoor, Aishwarya Rai, Sonam Kapoor e Deepika Padukone. 


Aishwarya Rai e Sonam Kapoor (Fotomontagem/Reprodução)

No tapete vermelho, desfilam os principais nomes da alta-costura nacional: Falguni & Shane, Masaba, Anamika Khanna, Sabyasachi e Manish Malhotra. Além dos internacionais Armani, Chanel, Prada e Elie Saab, conferindo glória e status aos astros de Bollywood.


Deepika Padukone e Kareena Kaporr (Fotomontagem/Reprodução)

Referências:

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

5 comentários:

  1. Que linda essa matéria. Quero sobre todas as culturas agora :D

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    1. Que bom que gostou, Daise! A proposta é falar do mundo todo, aguarde. <3

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  2. Ótima matéria, parabéns! esse sári da Mumtaz é lindo demais.

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    1. Fico feliz que tenha gostado, obrigada! E concordo, esse sári da Mumtaz é maravilhoso!

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