Vera Valdez, a brasileirinha ousada que encantou Coco Chanel

Por Rafaella Britto

Foto: Frank Hovart/Reprodução

Muito antes de Gisele, uma carioca já havia posto o mundo a seus pés. Corpo esguio, traços inigualáveis e ousadia inerente: assim é Vera Valdez (nome artístico de Vera Barreto Leite). Aos 16 anos, a brasileirinha tornou-se a favorita de Coco Chanel, e uma das mais badaladas modelos das décadas de 1950-60, fotografada por nomes como Richard Avedon, Frank Hovart, Helmut Newton e Willy Rizzo. Hoje, já próxima de seus 80 anos, é detentora de uma trajetória rica em amores, tragédias, sexo, drogas e rock ‘n’ roll. 


Foto: Frank Hovart, 1963/Reprodução

Filha de diplomatas, Vera Valdez deixou o Rio de Janeiro quando criança, após reprovar dois anos letivos no colégio americano onde estudava. Os pais mandaram-na para um colégio em Portugal, do qual também foi expulsa por desfilar de batom vermelho e vestido decotado. 
Na adolescência, acompanhou sua mãe, que fora trabalhar na embaixada francesa, em Paris. Ali, começou a nutrir o desejo de ser mannequin, e insistiu para que a mãe a levasse até o escritório de Elsa Schiaparelli, onde realizou seus primeiros trabalhos como modelo. Desfilou a última coleção de Schiaparelli e, logo após, foi manequim de Christian Dior e Coco Chanel. De volta ao Brasil, integrou o elenco de modelos da famosa Maison Canadá - pioneira no consumo de luxo no Brasil -, no Rio de Janeiro, e modelou para grandiosos nomes da alta-costura brasileira, como Dener Pamplona de Abreu.

À esquerda, Vera Valdez para Schiaparelli (1952); à direita, posa com figurino de Chanel (1961)
Foto: Reprodução/Facebook

Vera Valdez desfila para a Casa Canadá, nos anos 1950
Foto: Reprodução/Facebook

Vera emprestava seu corpo para que Chanel modelasse suas criações. Aliás, foi graças a Vera que Chanel passou a utilizar vermelho em suas coleções: quando se viram pela primeira vez, a menina trajava um tailleurzinho vermelho de botões dourados, que chamou a atenção da poderosa estilista. Em suas entrevistas, Vera descreve a relação com Chanel: “Eu era muito menina. Ela já era uma senhora”, disse em entrevista à Vice Brasil. Em entrevista a Vogue de Outubro de 2013, por ocasião da exposição The Little Black Jacket, em São Paulo, revelou que, para ela, Chanel é sinônimo de "saber o que é o corpo humano, que é preciso levantar o braço para segurar no metrô, que a saia tem de abrir para subir no ônibus, tudo sem nunca perder a elegância. Quando perguntei para Mademoiselle se ela não se incomodava com as muitas cópias do seu trabalho, que já eram feitas na época, ela disse: 'Mas é isto que eu quero: minha moda na rua!'" 
Era levada, e Chanel a punha de castigo sempre que sabia de alguma de suas estripulias, como colocar rabo de papel nas clientes. Vera trabalhou para Chanel até o último desfile antes da morte da estilista, em 1971.

Coco Chanel e Vera Valdez
Foto: Reprodução

Seu primeiro namorado foi o cineasta Ruy Guerra. Ambos tinham 20 anos. A beleza altiva da garota encantava homens e mulheres, desde poetas e astros do cinema a respeitados barões.

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução
Os anos 1960 trouxeram mudanças significativas para a realidade mundial e, consequentemente, para a vida da nossa primeira top model – que viveu intensamente alguns dos mais importantes períodos históricos do século XX. Vera posou nua para a revista Fair Play em 1963. Com o surgimento da Nouvelle Vague, passou a integrar os principais círculos intelectuais da boemia parisiense, que incluía figuras como Jean Cocteau. Foi amante de Louis Malle e Maurice Ronet. Casou-se pela primeira vez com o fotógrafo Luiz Linhares, pai de sua primeira filha. Seu segundo marido foi Pedro de Moraes, filho de Vinícius de Moraes. Associada a Louis Malle, Vera participou do clássico da Nouvelle “Trinta Anos Esta Noite” como figurinista, além de interpretar um curto papel não creditado.

Vera retornou ao Brasil e engajou-se no teatro. Tornou-se amiga da atriz Cacilda Becker, e participou de produções do cinema paulista, como “As Cariocas”, de Walter Hugo Khouri, e “O Homem Nu”, de Roberto Santos. Nesta época, afundou-se mais no vício das drogas que poriam em risco sua vida, quando foi presa pela Ditadura Militar, por portar um papelote de cocaína. Foi brutalmente torturada pelos militares, que obrigaram-na a citar nomes de companheiros comunistas, atuantes na guerrilha e luta armada. Para sua saída da prisão e exílio fora do Brasil, contou com o auxílio do amigo Rubem Braga. Tempos mais tarde, passou a vender drogas e a trabalhar como muambeira de grife, comprando peças exclusivas de estilistas parisienses e revendendo-as em bazares para sustentar-se no Brasil. Vera despediu-se das passarelas aos 34 anos (por acaso, a mesma idade em que Gisele escolheu se aposentar).

Foto: Revista Trip/2008

Hoje, Vera Valdez é do teatro. Em 2008, aos 72 anos, posou nua para a revista Trip. Em 2009, veio a público no Rio de Janeiro a exposição Vera Valdez – O Sol da Maison, com imagens de sua trajetória como modelo. A rainha não esconde as marcas do tempo e está em plena forma, indo contra a maré das convenções: bonita, bem humorada, inteligente e intensa. 

Império Retrô

Criado em 2010 por Rafaella Britto, o blog Império Retrô aborda a influência do passado sobre o presente, explorando os diálogos entre moda, arte e sociedade.

2 comentários:

  1. Ela é linda já tinha lido algo sobre ela
    mas não reparei que ela foi a escolhida de Chanel,
    como sempre vc arrasa nos textos eu sempre leio,mas por ler,não comento pq
    sempre estou no cel e não sei oq acontece que ele não deixa eu comentar.
    Beijos
    http://cherrycriis.blogspot.com

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    1. Muito obrigada, Cris! Sim, ela é linda mesmo!

      Beijos!

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